Kassab confirma contato do governo Lula e condiciona aliança a guinada econômica ao centro

Presidente do PSD afirma que sigla pode aprofundar relação com o quarto mandato petista, cobra nomes com perfil de Palocci e Meirelles na Fazenda e não descarta assumir ministério

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Gilberto Kassab durante ato de filiação partidária (imagem de arquivo).
Foto: Agência Senado / CC BY 2.0 via Wikimedia Commons
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O presidente nacional do PSD, Gilberto Kassab, afirmou que o governo de Luiz Inácio Lula da Silva já procurou o partido para negociar a composição política do quarto mandato presidencial. A declaração foi dada em entrevista ao jornal O Globo, na qual o dirigente partidário indicou a possibilidade de uma aproximação formal com o Palácio do Planalto, desde que a gestão petista adote medidas de equilíbrio fiscal e faça acenos claros ao centro na condução econômica.

Na prática, a movimentação redefine a partilha de cargos na Esplanada dos Ministérios e a sustentação do governo no Congresso Nacional. Durante o terceiro mandato de Lula, a legenda comandou três pastas: Agricultura, Minas e Energia e Pesca. A cúpula da sigla, contudo, nunca admitiu formalmente integrar a base aliada, tratando as nomeações apenas como indicações individuais autorizadas pela agremiação.

Para formalizar uma aliança mais sólida a partir de 2027, Kassab impôs a escolha de quadros moderados para o comando financeiro do país. O dirigente declarou que o presidente precisa repetir a estratégia adotada no início de sua trajetória no Planalto, escalando nomes de perfil ortodoxo e com trânsito junto aos agentes de mercado para garantir estabilidade fiscal.

"O governo já nos procurou desta vez, sim. Lula precisa ter uma postura para unir o país e aumentar o apoio, algo que não conseguiu no terceiro mandato. É claro que ele não pode deixar de honrar todos os compromissos sociais, foi eleito para isso. Mas vai precisar ter à frente da economia gente como Antonio Palocci e Henrique Meirelles no primeiro mandato que traga tranquilidade e equilíbrio fiscal. Se medidas econômicas forem adotadas, estaremos mais próximos, sim. Aí poderemos ter uma relação mais profunda", afirmou Kassab.

Questionado sobre um eventual retorno à Esplanada como titular de pasta no futuro mandato petista, o dirigente declarou que não planeja o posto, mas evitou fechar as portas. Kassab chefiou o Ministério das Cidades no governo de Dilma Rousseff e a pasta de Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações durante a gestão de Michel Temer. "Não está no meu horizonte, já fui de duas pastas. Mas é claro que é muito honroso ser e não descarto voltar mais uma vez", pontuou.

Isolamento do Centrão e negociação de espaços

O cacife político do PSD cresceu após a disputa eleitoral deste ano. Enquanto partidos do bloco do Centrão, como União Brasil, PP, Republicanos e MDB, declararam apoio a Flávio Bolsonaro (PL) na etapa final da disputa, o PSD optou por se manter formalmente neutro. Aliados de Lula apontam que o partido deve ser o mais beneficiado na divisão dos postos ministeriais, com tratamento preferencial em relação às demais legendas de centro que se alinharam ao bolsonarismo no segundo turno.

Retrato de Gilberto Kassab durante visita oficial (imagem de arquivo).
Retrato de Gilberto Kassab durante visita oficial (imagem de arquivo). (Foto: Jérémy Barande / CC BY-SA 2.0 via Wikimedia Commons)

Ao avaliar os erros do candidato derrotado, Kassab sustentou que a escolha de Flávio Bolsonaro custou a vitória à direita. Segundo o dirigente partidário, a campanha governista conseguiu explorar a rejeição popular ao projeto bolsonarista e à proposta de alteração constitucional levantada pelo senador durante a campanha eleitoral.

"Sempre registrei que se os adversários do governo escolhessem um adversário mais moderado, a chance de vitória era grande. Na hora que optaram pelo Flávio na direita, dividiram o centro com o Lula", declarou Kassab. O presidente do PSD apontou ainda que o linguajar e a postura agressiva do adversário em debates, como o ataque à deficiência física de Lula, afastaram o eleitorado fora do Rio de Janeiro.

A ofensiva do PT também contou com a mobilização de atos nas ruas e a atuação estratégica do deputado federal André Janones (Rede-MG) na comunicação digital. Sobre a pauta anticorrupção, Kassab rejeitou a tese de que o tema perdeu força, comparando o clima de indignação do segundo turno às manifestações de 2013, e advertiu para o risco de novos movimentos contestatórios caso o sistema político ignore o controle dos recursos públicos.

Disputas estaduais e articulação no Congresso

No cenário do parlamento, Kassab manifestou concordância com a tramitação de uma anistia articulada por Davi Alcolumbre (União-AP) para a eleição da presidência do Senado em 2027. O dirigente argumentou que a saída de Flávio Bolsonaro do país e a manutenção da inelegibilidade de Jair Bolsonaro legitimam o debate sobre o perdão judicial como um gesto de pacificação política por parte do vencedor da disputa.

No plano regional, a legenda contabilizou a vitória de cinco governadores, mas enfrentou impasses expressivos nas urnas. No Rio de Janeiro, o partido contesta no Supremo Tribunal Federal a impugnação de Eduardo Paes decidida pelo Tribunal Superior Eleitoral. Kassab rejeitou acusações de manobra jurídica e assegurou que defenderá o direito ao segundo turno contra Douglas Ruas nas cortes superiores.

Nas eleições de Minas Gerais, Kassab lamentou o revés de Mateus Simões no primeiro turno pela falta de alianças amplas, elogiando a habilidade demonstrada pelo senador Cleitinho na disputa. Sobre o fracasso nas sucessões estaduais comandadas por Ratinho Junior no Paraná e Eduardo Leite no Rio Grande do Sul, o líder partidário avaliou que o atraso na definição de candidaturas custou a vitória, apontando a governadora pernambucana Raquel Lyra como a principal força feminina do país para futuras disputas ao Palácio do Planalto nos próximos dez anos.

📌 CONTEXTO E ANTECEDENTES

A articulação entre o governo Lula e o PSD ocorre em um momento de desarticulação da oposição após a derrota de Flávio Bolsonaro no segundo turno das eleições presidenciais. O senador derrotado viajou em voo particular aos Estados Unidos após cruzar a fronteira da Argentina, ato que mobilizou o Itamaraty a cobrar esclarecimentos do país vizinho depois que determinação do Supremo Tribunal Federal ordenou a retenção de seus passaportes. O vácuo aberto com a saída de Flávio e Eduardo Bolsonaro do Brasil fortalece a busca do Palácio do Planalto pela ampliação de sua base no Legislativo com os partidos de centro que evitaram o alinhamento total à chapa oposicionista.