Virada eleitoral de Lula consolida disputa tecnopolítica nas redes e gera atrito entre marqueteiros
Mobilização descentralizada no WhatsApp reduziu abstenção no segundo turno, enquanto cúpula petista contesta publicitários que tentam faturar vitória no exterior
Informações de última hora confirmadas simultaneamente por múltiplos veículos de imprensa (CartaCapital, O GLOBO, Terra). Novos desdobramentos a qualquer momento.
A vitória de Luiz Inácio Lula da Silva sobre Flávio Bolsonaro no segundo turno das eleições presidenciais de 2026 consolidou uma reorganização na disputa pelas plataformas digitais. A campanha petista terminou a primeira etapa atrás do adversário e operou uma mudança tática imediata nas redes sociais. Em vez de centrar os esforços apenas no legado governamental anterior, a coordenação passou a explorar projeções de futuro e riscos associados a uma eventual volta da família Bolsonaro ao Planalto.
O movimento descentralizado nas redes impulsionou a presença de eleitores nas urnas. Dados oficiais do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) apontam que o índice de abstenção caiu de 21,08% no primeiro turno para 19,22% na etapa final. Parte expressiva desse comparecimento esteve atrelada à ação direta em grupos comunitários e mensagens privadas, em que cada apoiador recebeu a tarefa de levar às urnas quem havia faltado na primeira votação.
A reorganização de bases envolveu a criação de canais de grande escala em aplicativos de mensagens. Coordenado pelo deputado federal André Janones, o canal de WhatsApp "Exército do Lula" reuniu mais de 10 milhões de inscritos para distribuir vídeos, levantar termos nas redes e impulsionar checagens de fatos. No campo adversário, o canal "Tropa do Flávio", administrado pelo deputado federal Nikolas Ferreira desde outubro, alcançou 2,1 milhões de seguidores na véspera da votação.
A virada do resultado eleitoral também desencadeou divergências internas na equipe petista sobre a autoria dos planos digitais. O marqueteiro Rafael Marroquim e seus sócios Chico Kertész e Marcelo Kertész concederam entrevistas à imprensa argentina, entre elas ao jornal La Nación, apresentando-se como artífices centrais do resultado da campanha para atrair clientes do peronismo em Buenos Aires. Integrantes do alto escalão da comunicação de Lula contestaram publicamente as declarações e afirmaram que o trio de publicitários não chefiou a estratégia digital da candidatura.
Disputa algorítmica e mobilização popular
Análises acadêmicas e de consultoria política apontam que o campo progressista alterou o próprio padrão de atuação em 2026 ao superar modelos rígidos de propaganda eleitoral de rádio e televisão. Em análise publicada pela revista CartaCapital, a antropóloga Letícia Cesarino, professora da Universidade Federal de Santa Catarina e autora da obra "O Mundo do Avesso: Verdade e Política na Era Digital", afirmou que a esquerda conseguiu estruturar um ecossistema digital próprio, pautado por criatividade, capacidade de reflexão e produção espontânea de materiais.
O modelo adotado se diferenciou das táticas empregadas pelo bolsonarismo desde o pleito de 2018. Cesarino apontou que as redes da extrema direita mobilizam multidões de forma acrítica e afetiva sob comandos verticais, com práticas semelhantes às descritas por Pablo Marçal ao afirmar que lideranças precisam se fazer de idiotas para angariar seguidores. O campo progressista, ao contrário, descentralizou a produção ao atrair criadores independentes, jornalistas e cidadãos sem vínculo partidário prévio em torno da candidatura presidencial.
A dinâmica das grandes plataformas digitais de tecnologia privada, conhecidas pelo termo corporativo de big techs, também entrou no centro do debate sobre soberania política nacional. A interferência em favor de pautas conservadoras em plataformas da empresa Meta gerou questionamentos de militantes e pesquisadores sobre a falta de transparência na distribuição de conteúdos. Essa percepção ampliou as discussões a respeito da dependência estrutural que o debate público nacional mantém em relação a conglomerados sediados no exterior.
Especialistas em marketing alertam para os riscos do modelo comercial de redes abertas como o Instagram. Nessas plataformas, algoritmos privilegiam o que a publicidade classifica como "rage bait", tática de publicar provocações para lucrar com a raiva e o engajamento de usuários revoltados. Essa lógica algorítmica afasta discussões programáticas sobre propostas e o plano de governo, substituídas por polarizações superficiais voltadas a gerar cliques e visualizações.
A disputa digital de 2026 aprofundou experimentos iniciados na campanha presidencial de 2022, período em que a esquerda começou a responder às táticas digitais da extrema direita. O chamado "janonismo cultural" testou métodos de guerrilha virtual contra a máquina bolsonarista, mas ainda encontrava dificuldades para furar bolhas e conquistar novos territórios eleitorais. No segundo turno de 2026, a migração para canais diretos de comunicação e a produção voluntária de conteúdos transformaram o ambiente das redes em fator central da mobilização de votos. Contudo, especialistas ressaltam que a virada eleitoral não pode ser atribuída exclusivamente às redes sociais, destacando que a movimentação nas ruas e outros fatores também foram determinantes, segundo apontado pelo Terra.