Lula busca reunião com Trump ainda neste ano e mira negociação sobre tarifas comerciais

Planalto aposta em cúpulas internacionais para destravar diálogo e decide deixar caso de Flávio Bolsonaro restrito à Justiça

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O presidente Luiz Inácio Lula da Silva posa para a fotografia oficial da reunião do G7 (imagem de arquivo).
Foto: Lula Oficial / CC BY-SA 2.0 via Wikimedia Commons
🚨 PLANTÃO GAZETA: MATÉRIA EM ATUALIZAÇÃO

Informações de última hora confirmadas simultaneamente por múltiplos veículos de imprensa (Folha de S.Paulo, G1, InfoMoney, VEJA). Novos desdobramentos a qualquer momento.

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva disse a ministros que quer realizar uma reunião bilateral com Donald Trump ainda neste ano. A apuração foi publicada pelo jornal Folha de S.Paulo. Diplomatas de ambos os países atuam para definir uma data de encontro.

Duas possibilidades estão no radar do governo brasileiro. A primeira opção é uma conversa durante a cúpula da Associação de Nações do Sudeste Asiático (Asean), nas Filipinas, marcada para o período entre 15 e 17 de novembro. O segundo cenário avaliado é a reunião de cúpula do G20, em Miami, agendada para 14 e 15 de dezembro. Lula e Trump confirmaram presença em ambos os eventos.

O Palácio do Planalto aposta que Trump não vai se distanciar de Lula. O governo brasileiro avalia que o republicano respeita vencedores e não se alinha a perdedores. Por essa leitura, as críticas de Trump à eleição brasileira e a fuga de Flávio Bolsonaro (PL) para os Estados Unidos não devem impedir o contato direto.

O governo brasileiro traçou uma estratégia para evitar atritos com Washington. A orientação é monitorar os passos de Flávio Bolsonaro no território americano sem dar peso político a declarações do senador derrotado. De acordo com o InfoMoney, a decisão de Lula é deixar o episódio restrito aos tribunais do Brasil, prevenindo tensões com Trump e com o presidente da Argentina, Javier Milei.

A crise em torno de Flávio Bolsonaro deve adiar a análise do agrément de Daniel Perez. O termo diplomático define o consentimento formal que o governo brasileiro precisa conceder para autorizar a posse do indicado por Trump como novo embaixador dos Estados Unidos em Brasília.

No setor econômico, a prioridade de Brasília é destravar o comércio bilateral e reduzir a sobretaxa cobrada pelos norte-americanos. Desde 22 de julho, os produtos nacionais sofrem uma taxa de 25% com base na Seção 301 da legislação comercial americana. As exceções da cobrança atingem carne bovina, café e suco de laranja. Para 85,3% do volume tributado, a alíquota subiu para 37,5% porque se acumulou a uma taxa prévia de 25%.

Sobretaxas atingem exportações brasileiras

O impacto das medidas é direto sobre a produção nacional. Levantamento do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços aponta que as sanções americanas alcançam 23,1% das exportações brasileiras enviadas aos Estados Unidos, calculadas com base nas vendas de 2024. O Brasil pressiona pela redução das taxas, enquanto Washington quer incluir exigências tarifárias e não tarifárias nas negociações.

A Casa Branca deve apresentar em novembro um plano formal de exigências para nortear as tratativas. A elaboração do documento cabe ao representante comercial dos Estados Unidos, Jamieson Greer. Os dois países criaram um grupo de trabalho em setembro para tentar um acordo comercial. Até o momento, o documento oficial não foi entregue e não existe prazo para revogar as tarifas.

A disputa política interna nos Estados Unidos também entra nos cálculos de Brasília. Em outubro de 2025, cinco senadores republicanos apoiaram democratas em resolução para anular tarifas contra o Brasil. A medida contestava a aplicação da Lei de Emergência Econômica, mecanismo derrubado pela Suprema Corte americana. A avaliação técnica do Planalto indica que o resultado das eleições legislativas americanas (midterms) terá pouco efeito para alterar as taxas no curto prazo, diante do poder de veto presidencial de Trump.

O ex-embaixador do Brasil em Washington Rubens Barbosa declarou ao InfoMoney que a política comercial dos Estados Unidos tende a continuar. "Não acho que a eleição terá efeito direto sobre o Brasil, mas certamente terá impacto na política interna dos Estados Unidos", afirmou Barbosa. Para o diplomata, o protecionismo reflete objetivos estratégicos do governo norte-americano.

O historiador James Green, diretor do Washington Brazil Office, aponta motivação política nas medidas. Green citou a taxa de 50% anunciada em 2025, quando Trump associou a cobrança aos processos contra Jair Bolsonaro, chamados pelo republicano de "caça às bruxas". "As tarifas não têm lógica econômica. São instrumentos de pressão política, negociação e retaliação", declarou Green ao portal.

As barreiras comerciais americanas visam proteger indústrias locais e conter a China, mas afetam um parceiro superavitário. Números do Bureau of Economic Analysis (BEA) mostram que os Estados Unidos acumularam superávit comercial de US$ 480 bilhões nas trocas de produtos e serviços com o Brasil entre 2000 e 2025. Na prática, Washington vendeu muito mais mercadorias ao mercado brasileiro do que comprou ao longo de duas décadas e meia.

A busca pelo diálogo com Trump integra o encerramento do mandato de Lula em 2026. Em novembro, o país encerra o comando da COP, após sediar a cúpula do clima em Belém. A presidência do evento será repassada à Turquia, que receberá a COP31 em Antália com condução das negociações pela Austrália. O cronograma internacional do presidente inclui ainda a Cúpula do Mercosul.

📌 CONTEXTO E ANTECEDENTES

A relação comercial entre Brasil e Estados Unidos enfrenta tensões desde 2025, quando Donald Trump adotou taxas punitivas de até 50% contra mercadorias brasileiras em retaliação aos processos da Justiça contra Jair Bolsonaro. O atrito aumentou com a fuga recente de Flávio Bolsonaro para os Estados Unidos após ser derrotado na disputa pela Presidência da República. O Palácio do Planalto tenta desvincular a questão penal do diálogo econômico, priorizando a revisão das tarifas que penalizam exportadores industriais e do agronegócio nacional.