Cúpula da megaoperação mais letal do Rio conquista mandatos legislativos com votos no Alemão e na Penha
Ex-secretário Felipe Curi foi o segundo mais votado na região da ação que deixou 122 mortos; ofensiva vira alvo de denúncias do MP e ação de R$ 50 milhões da Defensoria
Informações de última hora confirmadas simultaneamente por veículos de imprensa (G1, VEJA RIO). Novos desdobramentos a qualquer momento.
Rio de Janeiro — O ex-secretário de Polícia Civil Felipe Curi (PP) foi o segundo candidato mais votado para deputado federal nas quatro zonas eleitorais que abrangem os complexos do Alemão e da Penha e bairros vizinhos. Curi participou do planejamento da Operação Contenção, deflagrada em 28 de outubro de 2025, que deixou 122 mortos na ação policial mais letal da história fluminense. Ele conquistou uma vaga na Câmara dos Deputados após somar 133.626 votos em todo o estado.
Nas zonas 21, 161, 162 e 188 da capital fluminense, Curi obteve 1.763 votos nominais. Esse total corresponde a 1,32% de sua votação estadual, segundo levantamento feito com dados do Tribunal Superior Eleitoral. A divisão territorial da Justiça Eleitoral reúne comunidades e bairros adjacentes como Bonsucesso, Ramos, Olaria, Penha, Brás de Pina, Cordovil, Cidade Alta, Parada de Lucas e Vigário Geral.
Outros dois integrantes da segurança pública atuantes na operação conquistaram vagas de deputado estadual na Assembleia Legislativa do Rio (Alerj). O delegado Bernardo Leal (PP), que perdeu a perna direita baleado por tiros de fuzil na ação, somou 57.254 votos no estado, sendo 116 nas quatro zonas locais. O ex-secretário de Polícia Militar Marcelo de Menezes Nogueira, o Coronel Menezes (PL), obteve 46,7 mil votos no estado e 147 no mesmo perímetro.
Somados, os três policiais receberam 2.026 votos na região. Curi rejeitou que a operação tivesse objetivos eleitorais e defendeu mudanças nas leis penais durante a campanha: "Ninguém faz uma operação dessas pensando em eleição. Ali nós perdemos policiais, pais de família que deram a vida e o sangue pelo Rio de Janeiro. A polícia pode entrar, mas se não mudarmos a lei, o crime volta".
Investigações apontam indícios de tortura e desvios de conduta
Um relatório sobre as câmeras operacionais dos policiais militares indicou a ocorrência de tortura, ameaças de morte e agressões durante a ação na região.
As câmeras corporais utilizadas pelos agentes não registraram nenhuma das mortes ocorridas durante a operação.
O Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro (MP-RJ) já denunciou 28 policiais militares da ofensiva por diferentes crimes.
Defensoria cobra R$ 50 milhões e Estado debate rumos
A Defensoria Pública ajuizou uma ação civil pública exigindo indenização de R$ 50 milhões do governo fluminense para reparação coletiva aos moradores da Penha e do Alemão. O órgão pede aplicação do recurso em obras de saúde, educação, esporte, lazer e atendimento psicossocial. O pedido cita mortes de civis sem antecedentes criminais, como a do pedreiro paraibano Ronaldo Julião da Silva, de 46 anos, pai de seis filhos, cujo corpo foi deixado exposto em via pública.
A megaoperação mobilizou cerca de 2,5 mil agentes, drones, 32 veículos blindados, 12 maquinários de demolição e dois helicópteros contra o Comando Vermelho. O saldo oficial registrou a morte de 117 civis e cinco policiais, além da prisão de 113 pessoas e o recolhimento de 91 fuzis. Apesar da magnitude, 33 alvos da ofensiva continuam foragidos na região.
Sob a gestão interina do governador Ricardo Couto, o governo estadual assinou acordos de cooperação com o Ministério da Justiça para combater o financiamento do crime e instalou bloqueadores de sinal contra drones. Dados do Instituto de Segurança Pública mostram que a letalidade violenta recuou 6,9% de janeiro a setembro de 2026, com 2.648 vítimas no estado, enquanto a apreensão de armas subiu 19,1% em agosto, alcançando 537 unidades. A política de segurança passará para o comando do inspetor policial Douglas Ruas (PL), governador recém-eleito que prometeu endurecimento das operações e retomada de áreas conflagradas.
A Operação Contenção ocorreu sob vigência das determinações do Supremo Tribunal Federal na ADPF 635, a ADPF das Favelas, que impôs regras rígidas para incursões policiais em comunidades do Rio de Janeiro. A decisão judicial fixou a obrigatoriedade do uso de câmeras operacionais corporais e determinou protocolos estritos de preservação de perícia após confrontos armados, enquanto investigações apuram a atuação policial e a legalidade das ações na operação.