Copom mantém Selic em 13,75% e interrompe cinco cortes seguidos
Decisão foi unânime, segundo O GLOBO, e o BC diz que inflação e expectativas pioraram depois da eleição
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O Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central manteve a Selic em 13,75% ao ano e interrompeu a sequência de cinco cortes de 0,25 ponto percentual iniciada em março. A decisão foi unânime, segundo O GLOBO. Foi a primeira reunião do comitê depois da reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).
A Selic é a taxa básica de juros da economia. Ela serve de referência para o custo do crédito e para o rendimento de boa parte das aplicações financeiras.
O comunicado mudou de tom. O Copom afirmou que a inflação cheia e a média dos núcleos, medidas que excluem itens mais voláteis, aceleraram e ultrapassaram o limite superior da meta. O IPCA subiu 0,82% em setembro e chegou a 4,58% em 12 meses. A meta é de 3%, com margem de 1,5 ponto para cima ou para baixo.
As expectativas também pioraram. Segundo o boletim Focus, as estimativas do mercado subiram para 5,2% em 2026 e 4,8% em 2027, ante 4,9% e 4,3% na reunião de setembro. A projeção do próprio BC para o segundo trimestre de 2028 passou de 3,2% para 3,5%. O Copom atribuiu parte dessa alta a "choques de oferta". Para o superintendente de pesquisa econômica do Itaú Unibanco, Fernando Gonçalves, parte da piora das expectativas decorre desses choques, e o Focus mostra trajetória de queda da Selic.
O Copom também citou o câmbio como risco. Entre os fatores, apontou uma taxa de câmbio "persistentemente mais depreciada" e o prolongamento dos conflitos no Oriente Médio, que pressionam o petróleo. O comunicado também lista como riscos de alta a política fiscal e estímulos à demanda; segundo O GLOBO, em setembro o governo reajustou o Bolsa Família em 15%. Como riscos de baixa para a inflação, o comunicado cita uma desaceleração doméstica mais forte que a projetada, um esfriamento global e a queda das commodities. O comunicado não menciona a eleição, mas a reunião ocorreu dias depois da vitória de Lula sobre Flávio Bolsonaro (PL), em 25 de outubro. No dia seguinte, o dólar subiu 8,36% e fechou a R$ 5,4066.
Para o Itaú Unibanco, o texto foi "menos duro do que nós esperávamos", avalia o superintendente de pesquisa econômica Fernando Gonçalves. Segundo ele, o comunicado não sinaliza juros altos por mais tempo, porque a barra para aumentar a Selic é bastante alta. Ao mesmo tempo, o Copom passou a ver uma desaceleração da atividade "mais acentuada" e sinais de desaquecimento no mercado de trabalho.
A Galapagos prevê Selic estável nos próximos meses. Para Ferraz, da mesma casa, os cortes só voltam a ser discutidos quando o governo reeleito definir a política fiscal, talvez no segundo semestre. "Mas isso ainda não está no nosso radar", afirma.
Os juros brasileiros também aparecem no topo de um ranking internacional. Segundo levantamento do Portal MoneYou e da Lev Intelligence, publicado pela Folha de S.Paulo, a taxa real do Brasil subiu de 8,45% ao ano em setembro para 9,49% ao ano. O cálculo desconta a inflação projetada de 4,99% para os próximos 12 meses. O índice fica acima de Turquia (7,77%), Argentina (6,80%) e Rússia (6,57%).
Quanto rende R$ 1 mil em cada aplicação
Uma simulação feita por Michael Viriato, da Casa do Investidor, a pedido da CNN, mostra quanto renderia R$ 1 mil após a manutenção da Selic. Na renda fixa, os CDBs de bancos médios, que pagam até 105% do CDI, levariam o valor a R$ 1.054,08 em seis meses e a R$ 1.332,95 em 30 meses. O CDI é a taxa de referência dos bancos para operações de curto prazo e acompanha de perto a Selic.
Entre as modalidades analisadas, os fundos de ações têm os maiores retornos. A aplicação de R$ 1 mil chegaria a R$ 1.064,44 em seis meses e a R$ 1.366,47 em 30 meses. A poupança aparece na outra ponta, com R$ 1.038,60 em seis meses e R$ 1.208,51 em 30 meses.
Os cálculos consideram rendimentos líquidos, já descontado o Imposto de Renda sobre os ganhos. A poupança é isenta de tributação. No Tesouro Selic, a simulação inclui taxa de custódia de 0,2%, referente às taxas da CBLC e da corretora, mas os custos variam conforme a instituição.
Com a Selic parada, a poupança segue como a aplicação de menor retorno no levantamento da CNN, e os fundos de ações ficam na frente em ambos os prazos.
Setor produtivo e sindicatos cobram cortes
A Confederação Nacional da Indústria (CNI) classificou a decisão como equivocada e excessivamente conservadora. Segundo a entidade, os juros altos encarecem o crédito, prejudicam empresas e famílias e desaceleram a economia. O presidente da CNI, Ricardo Alban, defendeu a retomada dos cortes na reunião do Copom prevista para dezembro.
Queiroz, da Apas, afirmou que "está na hora de o Banco Central adotar uma política monetária que tanto controle a inflação quanto não prejudique o ritmo de atividade econômica". Ele citou expectativa de expansão inferior a 2% neste ano. A Contraf-CUT e a CUT também criticaram a manutenção. Para Juvandia Moreira, "quanto mais alta a Selic, maior também será a dívida do Estado".
A Força Sindical chamou a decisão de "irracional, nefasta e desastrosa". O deputado federal Lindbergh Farias (PT-RJ) atribuiu a manutenção à pressão do mercado financeiro após a eleição. "É inadmissível que, depois da derrota de seu candidato, a Faria Lima passe a torcer contra o Brasil", escreveu ele nas redes sociais. Lindbergh também cobrou explicações do Banco Central sobre a interrupção do ciclo de cortes.
A próxima reunião do Copom está prevista para dezembro. É quando a CNI espera a retomada dos cortes, enquanto o mercado aguarda mais clareza sobre a política fiscal do novo governo.
Fontes: CNN Brasil — “Selic a 13,75%: Quanto rendem R$ 1 mil na poupança, CDB ou Tesouro Direto?”; O GLOBO — “Selic fica em 13,75%: entenda em 8 pontos a decisão do BC de interromper os cortes de juros no Brasil”; Valor Econômico — “BC mantém Selic em 13,75% e interrompe ciclo de corte de juros após cinco reuniões”; Folha de S.Paulo — “Brasil segue na liderança do ranking de juros reais após manutenção da Selic”; Agência Brasil — “Setor produtivo critica manutenção da Selic em 13,75% ao ano”.