Mendonça de Barros diz que erro no início do governo Lula será difícil de corrigir
Ex-secretário de Política Econômica afirma ao Estadão que o novo governo precisa mostrar um plano fiscal crível e escolher um ministro da Fazenda com poder para executá-lo
🚨 PLANTÃO GAZETA — notícia em desenvolvimento, escrita a partir de apuração do Estadão. As fontes estão no fim do texto; esta página pode ser atualizada.
O economista José Roberto Mendonça de Barros afirma que a largada do novo governo Lula será decisiva para o sucesso do quarto mandato do petista na economia. Em entrevista ao Estadão, ele diz que um erro no começo será difícil de reverter, porque "a mensagem terá sido ruim".
Sócio-fundador da consultoria MB Associados e ex-secretário de Política Econômica, ele afirma que a principal mensagem do governo deve ser um plano capaz de reverter o mau humor do mercado financeiro. Esse plano, segundo ele, precisa apontar uma trajetória sustentável para a dívida pública nos próximos anos.
Para o economista, o próximo governo não pode ficar restrito "apenas à turma da casa". Ele afirma que o presidente precisa entender o recado das urnas, depois de uma vitória que ele classifica como improvável e inédita no segundo turno. Mendonça de Barros diz que o presidente deve escolher "um líder da equipe econômica com competência, procuração e espaço para poder fazer esse programa".
Segundo ele, a redução da taxa de juros só pode acontecer com a redução da pressão fiscal. Taxa de juros é o preço cobrado para emprestar dinheiro, e pressão fiscal, na prática, é o peso das despesas do governo sobre as contas públicas. Sem uma melhora nas contas, afirma, os juros não devem cair.
Promessas de campanha pesam nas contas
O economista diz que o cenário, que já era difícil, ficou mais complicado por causa das promessas feitas durante a campanha. Ele afirma que é difícil estimar o custo, porque as propostas envolvem ampliar programas existentes e criar novos. O número que ouviu com mais frequência, segundo ele, é algo como R$ 100 bilhões a mais em despesas.
Para Mendonça de Barros, a vitória nas urnas foi grande, mas a situação econômica piorou muito, o que reforça o diagnóstico de que a situação fiscal é insustentável. Ele afirma que, com juros nesse nível, a dívida deve continuar crescendo até atingir um limite. Segundo ele, esse diagnóstico é praticamente universal.
Ele aponta duas dúvidas centrais. O presidente, assegurou que reconheceu o recado das urnas. A primeira dúvida do economista é se o presidente percebe que inflação e custo de vida estão no centro desse recado e precisam ser enfrentados. A segunda é quem será o ministro da Fazenda e qual mandato o presidente lhe dará. Para o economista, o ponto não é "carta branca", já que o regime é presidencialista, mas sim empoderamento.
O economista também diz que nenhum programa fiscal resolve o problema em um ano. Ele cita o presidente argentino Javier Milei e afirma que o que aconteceu na Argentina "só se explica por uma razão histórica da Argentina e, ainda assim, cheio de problemas". Segundo ele, o mercado não espera um ajuste feito em doze meses, e sim um compromisso com o ajuste e uma qualidade mínima.
Pela avaliação dele, o prazo razoável para mudar a trajetória da dívida em relação ao tamanho da economia seria de dois ou três anos. A relação dívida/PIB compara quanto o país deve com tudo o que produz em um ano. Na entrevista, o economista não citou nomes para a equipe econômica.
Fontes: Estadão — “‘Se o governo Lula errar no começo, será muito complicado consertar’, afirma Mendonça de Barros”.