Durigan diz que tabelamento de juros não está na mesa de Lula

Ministro da Fazenda nega reunião marcada com André Lara Resende, mas integrantes da equipe econômica relatam tentativa de agendar encontro com economistas

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Durigan diz que tabelamento de juros não está na mesa de Lula
Foto: Arquivo Gazeta Estrela Vermelha

🚨 PLANTÃO GAZETA — notícia em desenvolvimento, escrita a partir de duas reportagens da Folha de S.Paulo. As fontes estão no fim do texto; esta página pode ser atualizada.

O ministro da Fazenda, Dario Durigan, afirmou neste domingo (1º) que o tabelamento de juros não está na mesa do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Segundo a Folha de S.Paulo, o tabelamento seria a fixação de um teto para a taxa Selic, ligado ao crescimento do PIB, a soma de tudo o que o país produz. A Selic é a taxa básica de juros da economia, definida pelo Banco Central, e hoje está em 13,75% ao ano.

Durigan negou que o presidente tenha reunião marcada com o economista André Lara Resende, um dos formuladores do Plano Real. "Nenhuma dessas ideias como tabelamento de juros está na mesa do presidente", disse. "Não há nenhuma reunião agendada entre o presidente e Lara Resende. Há uma série de economistas que se colocaram à disposição para colaborar, em contato com Aloízio Mercadante [presidente do BNDES], mas não há encontro previsto."

Mercadante também disse à Folha que não há agenda entre o economista e Lula, nem discussão sobre a proposta dentro do governo. "A equipe econômica está trabalhando dentro da total transparência e previsibilidade. Essa proposta não está no governo", afirmou.

A versão do ministro, no entanto, não é a única. Três integrantes da equipe econômica disseram à Folha que existe a tentativa de marcar uma reunião de Lula com economistas de visões diferentes, mas ainda sem previsão formal. O colunista Lauro Jardim, do jornal O Globo, afirmou no domingo que Lara Resende teria encontro com Lula nesta semana, quando a proposta poderia ser apresentada. A Folha também lembra que Lula já criticou publicamente a autonomia do Banco Central e a alta da taxa de juros, com cobranças reiteradas ao presidente do BC, Gabriel Galípolo, para que a Selic fosse menor.

O que propõe Lara Resende

Segundo a Folha, a proposta prevê que o Banco Central mantenha a Selic entre a meta de inflação, de 3%, e o crescimento nominal potencial do PIB, de cerca de 5,5%, com uma margem de segurança de 2 pontos em relação ao PIB potencial. Para começar, a taxa cairia gradualmente ao longo de 12 meses até 7,5%. A proposta também cria um Conselho Fiscal e Monetário Nacional, que definiria metas conjuntas para quatro a cinco anos.

O economista defende há anos que o problema fiscal do Brasil está nos juros, e não no gasto primário, que exclui os juros. Ele faz um cálculo: com custo médio da dívida de 12,68% ao ano, a dívida cresceria R$ 1,4 trilhão por ano, o equivalente a 10,5% do PIB. Para ele, a Selic elevada faz os encargos da dívida crescerem em um ritmo que a produção do país não acompanha, e a saída passa por um tabelamento da taxa Selic.

A dívida bruta está em 82,9% do PIB, o maior nível desde 2021. Segundo a Folha, equilibrar essa conta exigiria um ajuste de ao menos R$ 250 bilhões nos próximos quatro anos.

Gestores de grandes bancos, ouvidos sob reserva pela Folha, afirmaram que a ideia gerou mal-estar. Segundo eles, o Conselho Fiscal e Monetário acabaria com a autonomia do Banco Central e deixaria a Selic a serviço do custo da dívida. Para eles, o cenário seria de "terra arrasada" para os ativos brasileiros, com alta mais forte do dólar e dos juros futuros do que a vista nesta semana. Eles dizem que o juro alto é consequência da falta de credibilidade fiscal, e não sua causa. Baixar a Selic por decisão política, sem âncora, levaria à chamada dominância fiscal, situação em que as contas públicas desorganizam a política monetária.

O pesquisador Marcos Mendes, do Insper, resumiu a crítica. "Toda proposta depende de um ajuste fiscal estrutural. Ora, se fizer tal ajuste, não há problema monetário ou de juros."

Reação no PT e no mercado

O presidente do PT, Edinho Silva, criticou as especulações em nota. "As especulações na área econômica não colaboram com o país e só fazem o jogo dos especuladores", disse. Para ele, "o único que fala em nome do governo Lula na política econômica é o ministro Dario Durigan". A deputada Gleisi Hoffmann chamou o artigo de Lara Resende de "fundamental para enfrentar essa ofensiva terrorista" sobre a política fiscal. Segundo a Folha, a manifestação dela é lida como um sinal de aproximação da teoria do economista à alta cúpula do PT.

Segundo a Folha, economistas alinhados ao PT são contra a proposta e avaliam que a simples divulgação de que o governo cogita analisá-la cria ruído desnecessário. Lara Resende foi procurado por WhatsApp no domingo, mas não respondeu até a publicação da reportagem.

A discussão ocorre em meio à alta do dólar observada nesta semana, após o resultado do segundo turno. Aliados de Lula defendem antecipar a definição da equipe econômica do quarto mandato, para enviar sinais mais concretos ao mercado.

📌 CONTEXTO E ANTECEDENTES

Segundo a Folha, a tese de que o problema fiscal está nos juros existe, em formatos variados, há mais de 30 anos, e Lara Resende já a havia defendido em 2017, em artigo criticado inclusive por economistas ortodoxos. A Selic está em dois dígitos desde 2022. Um gestor ouvido pelo jornal lembrou que algo parecido foi feito em 2012, quando, segundo ele, a inflação subiu até o teto da meta de 6,5%, e classificou a medida como "um desastre".

Fontes: Folha de S.Paulo — “Tabelamento de juros não está na mesa de Lula, diz ministro da Fazenda”; Folha de S.Paulo — “Proposta de Lara Resende para limitar Selic assusta mercado; Durigan nega discussão no governo”.