Convite a Rafael Fonteles para Ministério da Fazenda pode demorar até dois anos, diz apuração
Governador reeleito do Piauí é elogiado pelo mercado financeiro, mas declarações públicas sobre a vaga incomodaram Lula e abriram disputa interna no PT
Informações de última hora confirmadas simultaneamente por múltiplos veículos de imprensa (BBC, Diário do Poder, Estadão, O GLOBO). Novos desdobramentos a qualquer momento.
Um eventual convite do presidente Luiz Inácio Lula da Silva para que o governador reeleito do Piauí, Rafael Fonteles (PT), assuma o Ministério da Fazenda pode demorar de um a dois anos para acontecer. A avaliação circula na cúpula partidária e no Congresso após o chefe do Executivo demonstrar incômodo com declarações públicas do piauiense sobre o comando da equipe econômica.
Integrantes do governo viram nas falas recentes uma manobra para testar o humor do mercado financeiro e pressionar a escolha presidencial. Lula, no entanto, não formalizou nenhum chamado ao governador e mandou avisá-lo sobre a insatisfação com a exposição antecipada.
No Congresso, parlamentares da bancada petista afirmam que o posto na Fazenda não está em debate aberto e caberá unicamente à decisão pessoal de Lula. O presidente tem viagem prevista a Teresina na semana que vem, momento em que aliados locais esperavam uma definição sobre a Esplanada.
A permanência de Fonteles no Palácio de Karnak por até dois anos resolveria dois problemas imediatos da legenda. O primeiro é assegurar a estabilidade política do governo do Piauí, já que setores do PT desconfiam da capacidade de liderança do vice-governador eleito, Washington Bandeira (PT). O segundo ponto envolve o custo de uma renúncia definitiva.
Resistência partidária e o mercado
Diferentemente de senadores e deputados, que podem se licenciar para chefiar ministérios, ocupantes do Poder Executivo estadual precisam renunciar ao mandato para assumir cargos federais. Integrantes da sigla alertaram o presidente para o risco de nomear um ministro que se tornaria "indemissível", pois Lula ficaria com uma dívida política caso precisasse demiti-lo.
Petistas lembram nos bastidores a situação de Márcio Macêdo na Secretaria-Geral da Presidência. Ele abriu mão de disputar uma vaga de deputado federal por Sergipe para atuar na tesouraria eleitoral e gerou constrangimentos após atos esvaziados no Dia do Trabalho, sem que Lula tivesse facilidade para retirá-lo da equipe.
Em entrevista recente, Rafael Fonteles negou qualquer conversa direta com o presidente sobre cargos no governo federal e disse que está pronto para tomar posse no Piauí. O governador declarou que nunca viu um gestor estadual recém-eleito receber esse tipo de missão e afirmou que a equipe econômica buscará equilíbrio fiscal com cortes de privilégios.
Na Faria Lima, gestores e banqueiros apelidaram Fonteles de "novo Palocci", em referência a Antonio Palocci, mas afirmando que ele não carrega os mesmos desvios. O mercado vê no governador um quadro capaz de dialogar com as regras econômicas e com o Congresso, elogiado inclusive pelo ex-presidente do Insper Marcos Lisboa.
Nas urnas estaduais, Fonteles venceu no primeiro turno com 71% dos votos válidos. O Piauí também entregou a maior votação proporcional ao presidente da República no país, registrando 70,99% dos votos no primeiro turno e 75,88% na etapa final da disputa nacional.
Desenho ministerial pós-eleição
A montagem do time do quarto mandato de Lula também esbarra na acomodação de petistas derrotados nas urnas. O ex-ministro Fernando Haddad perdeu a eleição ao governo de São Paulo no primeiro turno para Tarcísio de Freitas (Republicanos), que alcançou 62% dos votos. Haddad demonstrou desejo de retornar à vida acadêmica e teve atuação considerada apagada no segundo turno da campanha nacional.
A ex-ministra Gleisi Hoffmann deixou a Secretaria de Relações Institucionais para tentar o Senado pelo Paraná e terminou na quarta colocação, sem vaga garantida. O posto foi preenchido por José Guimarães (PT-CE), que não concorreu a pedido de Lula. Com as derrotas, a Casa Civil tem hoje o senador Camilo Santana (PT-CE) mais cotado do que Haddad, enquanto Miriam Belchior segue bem avaliada no comando interino da pasta.
Na área da comunicação, o ministro Sidônio Palmeira não deve reassumir a Secretaria de Comunicação Social (Secom) após desgastes durante o primeiro turno. O nome mais cotado para a Secom é o jornalista Laércio Portela, que exerceu a função interinamente em maio de 2024 quando Paulo Pimenta foi deslocado para o Rio Grande do Sul.
Para o Ministério das Cidades, hoje sob comando técnico de Vladimir Lima, Lula avalia o ex-prefeito do Recife João Campos (PSB), derrotado pela governadora reeleita Raquel Lyra (PSD). Na área da Segurança Pública, caso a proposta que amplia o papel da União avance no Senado, são cotados o promotor Lincoln Gakiya e o ex-ministro Rui Costa.
Lula iniciará as reuniões formais para fechar o primeiro escalão logo após o feriado de Finados. A montagem da Esplanada precisará acomodar legendas do Centrão para construir base parlamentar em um Congresso de maioria opositora.
Ao mesmo tempo, Lula enfrentará seu quarto mandato presidencial sem poder buscar a reeleição em 2030, fator que antecipa disputas internas no PT pela sucessão e pelo controle dos principais ministérios da Esplanada.