Países recuperam recorde de 252 milhões de hectares, mas ritmo e recursos ameaçam meta de 2030, aponta ONU

Levantamento da Década da Restauração registra avanço histórico puxado por áreas terrestres, enquanto déficit global de financiamento beira US$ 1 trilhão durante debates na Armênia

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Participante discursa em evento do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (imagem de arquivo).
Foto: Elekes Andor / CC BY-SA 4.0 via Wikimedia Commons
🚨 PLANTÃO GAZETA: MATÉRIA EM ATUALIZAÇÃO

Informações de última hora confirmadas simultaneamente por múltiplos veículos de imprensa (Agência Brasil, Folha de S.Paulo, UN News, VEJA, Valor Econômico). Novos desdobramentos a qualquer momento.

Um total de 149 países colocou 252 milhões de hectares de áreas naturais em processo de recuperação, segundo relatório conjunto do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma) e da Organização da ONU para Alimentação e Agricultura (FAO). O resultado marca a maior operação de restauração ecológica já registrada no planeta e equivale à extensão territorial de países como Argentina ou Argélia.

Apesar do patamar sem precedentes, o ritmo atual das ações ainda é insuficiente para cumprir as metas globais fixadas para o final da década. O documento da ONU indica que os esforços precisam triplicar para que o mundo alcance a meta de 1 bilhão de hectares restaurados até 2030. Os dados mostram também que os aportes financeiros precisam quadruplicar para viabilizar as intervenções necessárias.

"É a maior operação de restauração já documentada", declarou Doreen Robinson, diretora adjunta da divisão de ecossistemas do Pnuma, em coletiva concedida em Nairóbi. O levantamento detalha que o avanço se concentra no meio terrestre, com 232 milhões de hectares em recuperação, o que representa a metade da meta estipulada para esse ambiente.

Os ecossistemas aquáticos registram uma defasagem acentuada em relação aos objetivos multilaterais. Foram recuperados apenas 11 milhões de hectares em águas continentais e 5,7 milhões de hectares em zonas marinhas e costeiras. De acordo com os relatórios das agências, rios, lagos e oceanos enfrentam degradação veloz e continuam muito distantes das marcas previstas para conservação.

A China lidera a restauração de áreas terrestres com ampla vantagem, somando 137 milhões de hectares recuperados. Na sequência do ranking aparecem Mongólia, Cazaquistão e Etiópia. Em todo o mundo, as políticas públicas ligadas ao setor já geraram 1 milhão de empregos verdes, diante de uma meta internacional de atingir 32 milhões de postos até 2030.

O Brasil aparece no estudo com 3,4 milhões de hectares em processo de recuperação monitorados via satélite. O relatório destaca ações integradas na Mata Atlântica com Argentina e Paraguai, envolvendo mais de 300 organizações civis para reestruturar corredores ecológicos que viabilizam o retorno de espécies sob risco, como a onça-pintada e o mico-leão-de-cara-dourada.

Os povos indígenas gerenciam ou possuem direitos sobre ao menos 3,9 bilhões de hectares, parcela superior a um quarto da superfície terrestre da Terra. Essas terras tradicionais englobam 40% das zonas protegidas globais. Apenas duas nações, Brasil e Iêmen, incluíram oficialmente dados de restauração em terras indígenas dentro dos relatórios nacionais remetidos à ONU.

Disputa financeira e revisão de metas em Yerevan

Os números foram apresentados no decorrer da COP17 de Biodiversidade, que acontece nesta semana em Yerevan, capital da Armênia, com 18 mil participantes de 196 nações. A conferência realiza o primeiro balanço oficial do Marco Global de Kunming-Montreal, pacto assinado em 2022 que contém 23 metas socioambientais rápidas.

O balanço oficial das diretrizes aponta entraves estruturais. Menos da metade dos planos nacionais declarados pelas partes está em curso real de atingir os índices estipulados para 2030. Registram-se atrasos severos na contenção de espécies invasoras exóticas, na criação de corredores biológicos contínuos e na cobrança corporativa por transparência sobre impactos ambientais de grandes empresas e bancos.

A grande trava dos debates reside no fosso orçamentário. O acordo internacional previu a arrecadação anual de US$ 200 bilhões de fontes públicas e privadas até 2030, incluindo US$ 30 bilhões pagos pelos países industrializados. O déficit financeiro acumulado para cobrir as ações de proteção saltou de US$ 700 bilhões para a faixa de US$ 1 trilhão.

As doações governamentais de ajuda externa ao desenvolvimento recuaram 25% em 2025 na comparação anual, e os repasses ao Fundo Global para o Meio Ambiente (GEF) caíram quase 30%. O GEF dispõe de US$ 3,8 bilhões para atender a convenções distintas. Os países ricos declararam repasses de quase US$ 20 bilhões pela OCDE, mas negociadores do Hemisfério Sul questionam a duplicidade dos registros contábeis em relação às verbas do clima.

Em Yerevan, governos anunciaram US$ 60 milhões para o Fundo Global para a Biodiversidade e US$ 4,4 milhões para o 9º ciclo do GEF. A diretora executiva da organização LACLIMA, Caroline Rocha, avaliou as somas como modestas. Ela ressalta que o desenho do Marco Global depende do redirecionamento de US$ 500 bilhões hoje concedidos como subsídios danosos à natureza.

O Brasil tenta fixar o conceito de bioeconomia nas negociações formais e mantém foco na captação do Fundo Florestas Tropicais Para Sempre (TFFF). O mecanismo, copresidido com a Noruega, captou US$ 7,8 bilhões até o momento com adesões de Reino Unido e Holanda, diante de uma meta final estipulada em US$ 125 bilhões. As tratativas em plenário seguem até o encerramento dos trabalhos da conferência na capital armênia.

📌 CONTEXTO E ANTECEDENTES

O Marco Global de Biodiversidade de Kunming-Montreal foi firmado em 2022 durante a COP15 com o objetivo de frear a perda biológica global por meio de 23 metas estruturantes até 2030, incluindo o compromisso 30x30 de preservar 30% das terras e oceanos. A iniciativa se integra à Década da Restauração de Ecossistemas da ONU (2021-2030), que definiu a recomposição de 1 bilhão de hectares como medida prioritária. Desde a conferência de Cáli, na Colômbia, em 2024, as negociações multilaterais enfrentam impasses contínuos sobre a distribuição de recursos financeiros e a repartição dos lucros do uso econômico de patrimônios genéticos em benefício dos países em desenvolvimento e comunidades tradicionais.