Países admitem fracasso parcial e travam metas globais de biodiversidade
Balanço oficial aponta que menos da metade dos objetivos para 2030 está no rumo certo, enquanto falta dinheiro para comunidades locais e fundos internacionais
Menos da metade das metas nacionais voltadas à preservação da natureza está no rumo de ser cumprida até 2030. A conclusão consta do balanço oficial dos indicadores das 23 metas do tratado internacional de biodiversidade, divulgado com base nos relatórios entregues pelos próprios governos. O documento classifica o resultado geral das ações como negativo e aponta falhas graves na apuração de dados e na capacidade técnica de monitoramento dentro de cada território.
Na prática, o atraso nas metas atinge diretamente a proteção das florestas, rios e mares que sustentam a produção de alimentos e o abastecimento de água para as famílias trabalhadoras. A avaliação oficial confirma que as ações adotadas até agora não acompanham a velocidade da destruição ambiental. O texto registra de forma taxativa que as partes informaram que menos da metade das metas nacionais relacionadas a qualquer meta global estava em vias de ser alcançada.
O documento lista pontos em que houve avanço prático desde a assinatura do acordo. Os países registraram medidas para deter a extinção de espécies animais e vegetais e a ampliação do manejo sustentável da fauna silvestre, com benefícios diretos a populações em situação de vulnerabilidade. O relatório também registra passos no combate aos impactos da crise climática sobre a diversidade biológica por meio de soluções baseadas na natureza.
Outro setor que apresentou melhoras foi a aplicação de práticas sustentáveis no campo e nas águas. Os governos apontaram progressos no manejo de áreas agrícolas, na pesca, na aquicultura e na silvicultura, com foco na regeneração dos ecossistemas e no esforço para restaurar as funções naturais da terra. Os relatórios indicam, contudo, que o acesso a recursos públicos, o treinamento de equipes locais e a transferência de tecnologia continuam desiguais entre as nações ricas e o restante do mundo.
Cobrança sobre empresas e subsídios nocivos emperram
As maiores travas do acordo aparecem nas ações que afetam interesses econômicos de grandes corporações e setores tradicionais da economia. Os relatórios revelam atraso quase total na exigência de que grandes empresas e instituições financeiras divulguem publicamente os impactos e os riscos que suas operações causam ao meio ambiente. O corte ou redirecionamento de subsídios estatais que financiam atividades predatórias também não saiu do papel na velocidade necessária.
O documento oficial destaca expressamente que foram registrados poucos avanços no acompanhamento e na mobilização de incentivos privados, bem como na redução dos subsídios governamentais prejudiciais à diversidade biológica. Nações signatárias relataram entraves graves na contenção de espécies exóticas invasoras, no combate ao desperdício de comida e na redução do lixo produzido diariamente nos centros urbanos.
A criação de corredores verdes e azuis, desenhados para conectar reservas terrestres, cursos de água doce e bacias marinhas, também ficou entre as áreas com menor progresso prático. Essa proposta de conectividade territorial e ecológica foi uma das principais contribuições levadas pela delegação do Brasil para as negociações diplomáticas realizadas em Yerevan, na Armênia.
Os países menos desenvolvidos e os pequenos Estados insulares registraram que a carência de meios materiais e financeiros é o obstáculo mais frequente para colocar os planos em prática. A escassez de verbas atinge com mais força os grupos que estão na linha de frente da preservação em seus territórios: povos indígenas, comunidades locais, mulheres, jovens e pessoas com deficiência relataram dificuldades severas para acessar qualquer tipo de apoio estrutural.
Repasses modestos e pressão por novos financiadores
O Marco Global de Biodiversidade estabelece a meta de mobilizar US$ 200 bilhões anuais de todas as origens até 2030, quantia equivalente a mais de R$ 1 trilhão. Desse montante total, US$ 30 bilhões anuais devem vir obrigatoriamente de financiamento público internacional, pago pelos países desenvolvidos. O fluxo real de recursos, no entanto, permanece distante desse compromisso.
Em 2025, o financiamento global para a biodiversidade ficou estimado entre US$ 7,9 bilhões e US$ 92,4 bilhões anuais, segundo cálculos apresentados pela diretora executiva da organização social LACLIMA, Caroline Rocha. Durante o encontro em Yerevan, governos anunciaram repasses de US$ 60 milhões para o Fundo Global para a Biodiversidade e cerca de US$ 4,4 milhões para o 9º ciclo do Fundo Global para o Meio Ambiente.
Caroline Rocha classifica esses valores anunciados na Armênia como modestos diante do tamanho da crise. Para a diretora, a COP17 só terá sucesso real se as decisões garantirem que o dinheiro prometido chegue de fato às comunidades que protegem a floresta e os mananciais. Ela defende destravar o debate político para incluir novos países doadores na lista oficial, como a China, e recorrer a instrumentos além das doações voluntárias.
A representante da LACLIMA avalia que a conta global da preservação só fechará se o debate envolver fundos multilaterais, investimentos privados e orçamentos governamentais diretos. O próprio desenho do tratado internacional prevê que a maior parte do dinheiro necessário deve vir do corte e do redirecionamento de US$ 500 bilhões em subsídios públicos que hoje financiam a destruição da natureza em todo o planeta.