Disputa por tribunal põe presidente e governo da Polônia em confronto direto
Presidente Karol Nawrocki fura bloqueio policial após posse de juiz aliado do premiê Donald Tusk, enquanto STF brasileiro vê alerta institucional
Informações de última hora confirmadas simultaneamente por múltiplos veículos de imprensa (CNN Brasil, DW.com, Jovem Pan, O GLOBO, UOL Notícias). Novos desdobramentos a qualquer momento.
Varsóvia — O presidente da Polônia, Karol Nawrocki, ultrapassou à força o cordão de segurança da polícia na madrugada deste sábado (31) para entrar no Tribunal Constitucional, no centro de Varsóvia. O prédio estava cercado por manifestantes do partido de oposição Lei e Justiça (PiS), sigla de direita aliada do chefe de Estado. O protesto tenta impedir a posse de novos magistrados eleitos pela maioria parlamentar ligada ao primeiro-ministro Donald Tusk.
Nawrocki, que antecipou o retorno de uma viagem ao Senegal, publicou um comunicado oficial acusando o governo de promover a tomada violenta da corte. "Nesta noite, houve uma violação da ordem constitucional da República da Polônia e a tomada, à força, de um órgão constitucional do Estado", declarou o presidente. Ele informou ter consultado o primeiro presidente do Supremo Tribunal, Zbigniew Kapiński, e autorizou a entrada do vice-presidente da corte, Bartłomiej Sochański, no edifício.
O primeiro-ministro Donald Tusk rebateu a acusação por meio de publicação na rede social X. Ele afirmou que sua coalizão tem o compromisso de desfazer as alterações judiciais herdadas do período em que o PiS governou o país, entre 2015 e 2023. "Restaurar o Estado de direito é o nosso dever. Após anos de ilegalidade sob o governo do PiS, esse é um processo difícil, por vezes doloroso, que exige uma ação resoluta. Não há outro caminho", escreveu o chefe de governo.
A crise institucional na Europa repercutiu no Judiciário brasileiro. O presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), ministro Edson Fachin, declarou que o episódio deve servir de aviso para as instituições democráticas globais. "Quando tribunais sofrem pressões ou interferências indevidas, abre-se caminho para a concentração de poder, o enfraquecimento dos mecanismos de controle e a restrição das liberdades individuais", afirmou o ministro, que classificou os acontecimentos como "um alerta polonês para o Brasil e o mundo".
Manobras regimentais e bloqueio na posse
O impasse se intensificou após o Parlamento dar posse ao juiz Maciej Berek, aliado de Tusk. Entre março e setembro deste ano, Nawrocki havia se recusado a empossar cinco juízes votados pelo Legislativo. O presidente aceitou nomear três magistrados posteriormente, mas barrou nomes como o de Anna Korwin-Piotrowska. Para contornar a recusa presidencial, os parlamentares realizaram a cerimônia dentro do próprio Congresso, com respaldo de parecer da Comissão de Veneza do Conselho da Europa.
Com a entrada de Berek, a base aliada ao governo passou a reunir oito votos dentro do Tribunal Constitucional, órgão que possui 15 assentos no total. O atual presidente da corte, Bogdan Swieczkowski, recusa-se a distribuir processos aos magistrados recém-chegados. O ministro da Justiça e procurador-geral pediu a retirada da imunidade de Swieczkowski, que responde a acusações criminais e corre risco de afastamento e prisão. Em resposta, a juíza Korwin-Piotrowska anunciou a intenção de assumir o comando interino do tribunal.
A imprensa polonesa avalia os impactos dessa disputa. De acordo com o jornal Gazeta Wyborcza, a maioria governista precisa de dois terços dos votos para abrir uma sessão plenária e suspender a imunidade de Swieczkowski, o que exige atrair ao menos dois votos da ala adversária. Já o jornal Rzeczpospolita destacou que a vaga foi preenchida por um ministro em exercício de Tusk, o que inviabilizou a percepção de independência técnica e fez com que a corte passasse a ser reconhecida apenas por uma parte do espectro partidário.
Manifestações nas ruas e rodadas de negociação
A disputa ocorre a um ano das eleições parlamentares, marcadas para o fim de 2027. Nas ruas de Varsóvia, militantes do PiS mantêm vigília contínua em apoio aos magistrados nomeados na gestão passada. Aposentados e militantes viajaram de cidades do interior, como Zgorzelec, na fronteira com a Alemanha, para reforçar o bloqueio. Para a cientista política Ewa Marciniak, da Universidade de Varsóvia, o cenário antecipa o clima de campanha e estimula a radicalização das bases de ambos os lados.
O Nobel da Paz e ex-presidente polonês Lech Walesa manifestou apoio explícito às ações do primeiro-ministro. "A pátria está em perigo!", publicou o líder histórico do sindicato Solidariedade ao defender as medidas adotadas pelo governo contra o tribunal. Do lado oposto, manifestantes afirmam que a atuação do Executivo atropela as leis vigentes e unifica os partidos conservadores da oposição.
Durante a tarde, Nawrocki realizou consultas políticas no palácio presidencial com legendas de oposição, incluindo alas da extrema direita e grupos de esquerda radical, além de dois partidos da própria base de Tusk. A legenda de esquerda que integra a coalizão de governo afirmou não ter recebido convite e declarou que não negociará com o chefe de Estado. A Coligação Cívica (KO), partido liderado por Tusk, também não enviou representantes ao encontro, mantendo o impasse sobre o controle da mais alta instância constitucional do país.
Durante o período em que governou a Polônia, entre 2015 e 2023, o partido ultranacionalista Lei e Justiça (PiS) realizou uma série de alterações estruturais no Poder Judiciário, nomeando juízes alinhados e sobrepondo a legislação nacional às decisões dos tribunais comunitários. As reformas provocaram sanções e multas financeiras aplicadas pela União Europeia contra o país. Ao assumir o cargo de primeiro-ministro em 2023, Donald Tusk iniciou uma ofensiva para anular essas medidas, entrando em rota de colisão direta com o presidente Karol Nawrocki, eleito em agosto de 2025 com o apoio das forças conservadoras.