Universidades do Paraná punem estudantes de medicina por ataques a bolsistas e apologia ao nazismo
UniCesumar e Centro Universitário FAG aplicam expulsões e suspensões após ofensas em grupos virtuais motivadas pelo resultado da eleição presidencial
Informações de última hora confirmadas simultaneamente por múltiplos veículos de imprensa (Estadão, Folha de S.Paulo, G1, Maringá Post, Poder360). Novos desdobramentos a qualquer momento.
Maringá (PR) — A universidade privada UniCesumar expulsou estudantes de medicina da unidade de Maringá, no norte do Paraná, após a conclusão de uma sindicância interna sobre o envio de mensagens com teor preconceituoso e apologia ao nazismo em grupos de mensagens. A decisão disciplinar, anunciada pela reitoria após a conclusão das apurações na sexta-feira (30), incluiu advertências, suspensões e desligamentos definitivos de alunos envolvidos em ataques contra colegas que ingressaram na graduação por meio de programas sociais.
As agressões verbais começaram logo após o resultado do segundo turno das eleições presidenciais, no qual Luiz Inácio Lula da Silva foi eleito. O alvo principal das mensagens foram alunos beneficiários de programas de acesso ao ensino superior, como o Programa Universidade para Todos (Prouni) e o Fundo de Financiamento Estudantil (Fies), mantidos pelo governo federal para custear vagas a estudantes de baixa renda.
A instituição confirmou que seguiu integralmente o relatório final de sua comissão de sindicância e aplicou as penalidades previstas no regimento interno. A UniCesumar declarou que o grupo de WhatsApp em questão não mantém qualquer relação com a universidade e exigia convite de membros para o acesso. A direção do centro universitário informou que não divulgará os nomes dos estudantes punidos nem o número exato de alunos que receberam cada uma das sanções disciplinares.
O caso veio a público formalmente após estudantes do próprio curso protocolarem uma representação junto ao Ministério Público no dia 26 de outubro. Os denunciantes reuniram um dossiê com capturas de tela e registros integrais de conversas virtuais que continham agressões xenófobas, falas elitistas e o compartilhamento de materiais de apologia nazista.
Ofensas de classe e referências supremacistas
Entre as mensagens divulgadas pela Associação dos Estudantes de Medicina do Paraná (Aemed-PR), constam falas direcionadas explicitamente à condição financeira dos bolsistas. Um dos textos afirmava: "Pai dos pobres vai cuidar de vocês, fiquem tranquilos, pobrinhos. A gente está tranquilo e tem 15k por mês com sobras". Outro comentário dizia: "Nossos pais têm dinheiro e não precisam de ex-presidiário para bancar faculdade, não".
Em outra postagem compilada pelos estudantes, um participante escreveu: "Graças a Deus eu tenho uma família trabalhadora e digna que consegue pagar minha mensalidade". Houve também menções diretas aos auxílios educacionais: "Pessoal do Prouni aí comemora que vai continuar essa palhaçada". Além das declarações depreciativas sobre renda, as conversas registraram a imagem de um pelotão militar da antiga Alemanha Oriental acompanhada do termo em inglês "raw milk" (leite cru), expressão associada por entidades civis a ideais supremacistas.
Mensagens de teor similar foram identificadas no Centro Universitário FAG (Fundação Assis Gurgacz), em Cascavel, também no Paraná. A administração do FAG confirmou a abertura de processos administrativos e informou que três universitários receberam advertências e foram suspensos. Em nota, o centro universitário afirmou que repudia condutas que incitem o ódio ou firam a dignidade humana e a convivência democrática.
No material atribuído a discentes do FAG reunido pela entidade estudantil, constavam incitações diretas a estupro e racismo. Um trecho dizia: "Eu quero e vou apoiar os que saem das cadeias roubar as casas e estuprar esses que votaram no PT. Vou dar o endereço". Em outra manifestação no mesmo fórum virtual, um aluno escreveu: "Agora nenhum negro será chicoteado no B1", em alusão direta a um dos prédios de salas de aula do câmpus.
Reações de entidades médicas e do corpo discente
O Conselho Regional de Medicina do Paraná (CRM-PR) emitiu nota oficial de repúdio contra os episódios registrados nas duas instituições. O órgão fiscalizador declarou que "a escolha pela Medicina exige compromissos humanísticos e humanitários, pautados pela promoção do bem-estar físico, mental e social dos indivíduos e da coletividade. Atitudes discriminatórias são incompatíveis com esses valores e não devem ser toleradas no ambiente de formação médica". O conselho ressaltou que acompanha as apurações e adotará as providências cabíveis dentro de suas atribuições regimentais.
A Aemed-PR enviou notificações extrajudiciais às reitorias exigindo a expulsão sumária de todos os envolvidos em condutas passíveis de caracterização penal. A entidade criticou a postura do Centro Universitário FAG por limitar as punições a suspensões provisórias. "A ética médica não é negociável e não podemos entregar a saúde da população a quem não tem o mínimo de empatia", declarou o estudante Sérgio Robassa, diretor de relações externas da associação.
Entidades representativas do curso na UniCesumar desligaram os estudantes investigados de seus respectivos quadros de membros. O Centro Acadêmico Miguel Nicolelis anunciou que vai oferecer atendimento psicoterapêutico gratuito ou a valores reduzidos para os alunos atingidos pelos ataques. A reitoria da UniCesumar informou que mantém em funcionamento o Núcleo de Apoio ao Estudante de Medicina (Naeme) para orientar a comunidade acadêmica pelos telefones (44) 99122-3957 e (44) 3027-6360, no ramal 2817.
A legislação brasileira prevê punições rigorosas para manifestações discriminatórias e apologias ideológicas totalitárias no território nacional. A apologia ao nazismo, caracterizada pela veiculação de símbolos, imagens ou distintivos ligados ao regime hitlerista, configura crime inafiançável e imprescritível com pena de reclusão prevista na Lei Federal nº 7.716/1989. O ambiente universitário e o treinamento médico são regidos por diretrizes curriculares que exigem conduta ética e respeito à dignidade humana, princípios que embasam sanções administrativas que vão de suspensões temporárias ao desligamento compulsório.