Universidades do Paraná punem estudantes de medicina por ataques a bolsistas e apologia ao nazismo

UniCesumar e Centro Universitário FAG aplicam expulsões e suspensões após ofensas em grupos virtuais motivadas pelo resultado da eleição presidencial

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Fachada do polo da UniCesumar em Telêmaco Borba, no Paraná (imagem de arquivo).
Foto: Simplus Menegati / CC BY-SA 4.0 via Wikimedia Commons
🚨 PLANTÃO GAZETA: MATÉRIA EM ATUALIZAÇÃO

Informações de última hora confirmadas simultaneamente por múltiplos veículos de imprensa (Estadão, Folha de S.Paulo, G1, Maringá Post, Poder360). Novos desdobramentos a qualquer momento.

Maringá (PR) — A universidade privada UniCesumar expulsou estudantes de medicina da unidade de Maringá, no norte do Paraná, após a conclusão de uma sindicância interna sobre o envio de mensagens com teor preconceituoso e apologia ao nazismo em grupos de mensagens. A decisão disciplinar, anunciada pela reitoria após a conclusão das apurações na sexta-feira (30), incluiu advertências, suspensões e desligamentos definitivos de alunos envolvidos em ataques contra colegas que ingressaram na graduação por meio de programas sociais.

As agressões verbais começaram logo após o resultado do segundo turno das eleições presidenciais, no qual Luiz Inácio Lula da Silva foi eleito. O alvo principal das mensagens foram alunos beneficiários de programas de acesso ao ensino superior, como o Programa Universidade para Todos (Prouni) e o Fundo de Financiamento Estudantil (Fies), mantidos pelo governo federal para custear vagas a estudantes de baixa renda.

A instituição confirmou que seguiu integralmente o relatório final de sua comissão de sindicância e aplicou as penalidades previstas no regimento interno. A UniCesumar declarou que o grupo de WhatsApp em questão não mantém qualquer relação com a universidade e exigia convite de membros para o acesso. A direção do centro universitário informou que não divulgará os nomes dos estudantes punidos nem o número exato de alunos que receberam cada uma das sanções disciplinares.

O caso veio a público formalmente após estudantes do próprio curso protocolarem uma representação junto ao Ministério Público no dia 26 de outubro. Os denunciantes reuniram um dossiê com capturas de tela e registros integrais de conversas virtuais que continham agressões xenófobas, falas elitistas e o compartilhamento de materiais de apologia nazista.

Ofensas de classe e referências supremacistas

Entre as mensagens divulgadas pela Associação dos Estudantes de Medicina do Paraná (Aemed-PR), constam falas direcionadas explicitamente à condição financeira dos bolsistas. Um dos textos afirmava: "Pai dos pobres vai cuidar de vocês, fiquem tranquilos, pobrinhos. A gente está tranquilo e tem 15k por mês com sobras". Outro comentário dizia: "Nossos pais têm dinheiro e não precisam de ex-presidiário para bancar faculdade, não".

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva recebe homenagem durante evento do G7 na Itália (imagem de arquivo).
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva recebe homenagem durante evento do G7 na Itália (imagem de arquivo). (Foto: Lula Oficial / CC BY-SA 2.0 via Wikimedia Commons)

Em outra postagem compilada pelos estudantes, um participante escreveu: "Graças a Deus eu tenho uma família trabalhadora e digna que consegue pagar minha mensalidade". Houve também menções diretas aos auxílios educacionais: "Pessoal do Prouni aí comemora que vai continuar essa palhaçada". Além das declarações depreciativas sobre renda, as conversas registraram a imagem de um pelotão militar da antiga Alemanha Oriental acompanhada do termo em inglês "raw milk" (leite cru), expressão associada por entidades civis a ideais supremacistas.

Mensagens de teor similar foram identificadas no Centro Universitário FAG (Fundação Assis Gurgacz), em Cascavel, também no Paraná. A administração do FAG confirmou a abertura de processos administrativos e informou que três universitários receberam advertências e foram suspensos. Em nota, o centro universitário afirmou que repudia condutas que incitem o ódio ou firam a dignidade humana e a convivência democrática.

No material atribuído a discentes do FAG reunido pela entidade estudantil, constavam incitações diretas a estupro e racismo. Um trecho dizia: "Eu quero e vou apoiar os que saem das cadeias roubar as casas e estuprar esses que votaram no PT. Vou dar o endereço". Em outra manifestação no mesmo fórum virtual, um aluno escreveu: "Agora nenhum negro será chicoteado no B1", em alusão direta a um dos prédios de salas de aula do câmpus.

Reações de entidades médicas e do corpo discente

O Conselho Regional de Medicina do Paraná (CRM-PR) emitiu nota oficial de repúdio contra os episódios registrados nas duas instituições. O órgão fiscalizador declarou que "a escolha pela Medicina exige compromissos humanísticos e humanitários, pautados pela promoção do bem-estar físico, mental e social dos indivíduos e da coletividade. Atitudes discriminatórias são incompatíveis com esses valores e não devem ser toleradas no ambiente de formação médica". O conselho ressaltou que acompanha as apurações e adotará as providências cabíveis dentro de suas atribuições regimentais.

A Aemed-PR enviou notificações extrajudiciais às reitorias exigindo a expulsão sumária de todos os envolvidos em condutas passíveis de caracterização penal. A entidade criticou a postura do Centro Universitário FAG por limitar as punições a suspensões provisórias. "A ética médica não é negociável e não podemos entregar a saúde da população a quem não tem o mínimo de empatia", declarou o estudante Sérgio Robassa, diretor de relações externas da associação.

Entidades representativas do curso na UniCesumar desligaram os estudantes investigados de seus respectivos quadros de membros. O Centro Acadêmico Miguel Nicolelis anunciou que vai oferecer atendimento psicoterapêutico gratuito ou a valores reduzidos para os alunos atingidos pelos ataques. A reitoria da UniCesumar informou que mantém em funcionamento o Núcleo de Apoio ao Estudante de Medicina (Naeme) para orientar a comunidade acadêmica pelos telefones (44) 99122-3957 e (44) 3027-6360, no ramal 2817.

📌 CONTEXTO E ANTECEDENTES

A legislação brasileira prevê punições rigorosas para manifestações discriminatórias e apologias ideológicas totalitárias no território nacional. A apologia ao nazismo, caracterizada pela veiculação de símbolos, imagens ou distintivos ligados ao regime hitlerista, configura crime inafiançável e imprescritível com pena de reclusão prevista na Lei Federal nº 7.716/1989. O ambiente universitário e o treinamento médico são regidos por diretrizes curriculares que exigem conduta ética e respeito à dignidade humana, princípios que embasam sanções administrativas que vão de suspensões temporárias ao desligamento compulsório.