Vitória democrata pode reduzir risco de nova guerra com o Irã, diz especialista tunisiano
Segundo Abdel Hamid Mahfouzi, à agência estatal russa TASS, a mudança no Congresso americano pode abrir espaço para negociações sobre o Estreito de Ormuz.
A vitória dos democratas nas eleições legislativas de meio de mandato dos Estados Unidos pode diminuir o risco de um novo confronto militar direto entre Washington e Teerã, segundo o especialista militar tunisiano em relações internacionais Abdel Hamid Mahfouzi. Ele disse isso à agência estatal russa TASS. Para o analista, a mudança também pode levar o presidente Donald Trump a negociar a reabertura do Estreito de Ormuz, passagem marítima do Golfo Pérsico por onde circula parte do petróleo mundial.
Mahfouzi afirma que o principal efeito seria a redução da ameaça de guerra, sobretudo a hipótese de um ataque nuclear, tema que, segundo ele, foi muito discutido. Os democratas, nesse cenário, poderiam transferir a Israel, aliado dos EUA, a responsabilidade por ataques decisivos contra a infraestrutura iraniana. Qualquer outro resultado, na avaliação do especialista, seria visto como reconhecimento da vitória iraniana, se não como admissão de derrota americana.
O especialista também prevê um movimento em direção a negociações, centrado na reabertura de Ormuz. Esse processo, segundo ele, viria acompanhado da liberação de uma pequena parte dos ativos iranianos congelados, ou seja, recursos do Irã bloqueados no exterior. Mahfouzi acredita ainda que Washington deve reduzir o apoio à Arábia Saudita e se afastar do conflito com os houthis, grupo armado do Iêmen. Esse papel poderia ser delegado a Israel, ou talvez ao Paquistão ou à Turquia.
Sobre o Hezbollah, movimento xiita libanês, o especialista não prevê mudança na política americana. "É pouco provável que algo mude nessa frente. A situação atual, marcada por choques persistentes e recorrentes, vai continuar", afirmou.
Por que os republicanos perderam
Para Mahfouzi, a perspectiva de guerra com o Irã esteve entre os principais fatores da derrota republicana. Ele citou também a alta dos combustíveis e o aumento do custo de vida como temas que pesaram no voto.
Segundo o especialista, as perdas republicanas superaram as expectativas, e os democratas avançaram até em estados tradicionalmente republicanos, como Texas e Kansas. Para os grandes doadores do partido e para grandes empresas, que, nas palavras dele, "investiram somas enormes para fortalecer sua influência", o resultado foi um desastre.
O analista também observa que a derrota dos republicanos coincidiu com a do premiê israelense Benjamin Netanyahu.
Com maioria nas duas casas do Congresso, os democratas podem, segundo Mahfouzi, bloquear a agenda legislativa do presidente. Eles também podem pressioná-lo por meio de mecanismos orçamentários, abrir investigações sobre o governo e atrapalhar nomeações que dependem de aprovação do Senado.
Em temas financeiros, por exemplo, Trump não poderá agir sozinho sem passar pela Câmara dos Representantes, disse o especialista. Trump declarou que pretende usar o poder de veto caso os democratas tentem aprovar iniciativas próprias. Para Mahfouzi, isso aponta para "uma nova fase de confronto político em Washington".
O analista chegou a perguntar se Trump poderia se tornar um presidente que obstrui o funcionamento das instituições do Estado. Apesar disso, ele não vê motivo para esperar mudança de fundo na política externa americana, incluindo a abordagem do Oriente Médio. Para o especialista, a vitória democrata é mais técnica do que política. "A forma vai mudar, mas o conteúdo continuará o mesmo", concluiu.
Fontes: TASS — “Democrats’ victory in US elections may lower risk of renewed war with Iran — expert”.