Eleições de meio de mandato testam governo Trump sob recorde de votos antecipados nos EUA
Pleito renova a Câmara e parte do Senado com alta mobilização do eleitorado latino e avanço de candidaturas da esquerda
Informações de última hora confirmadas simultaneamente por múltiplos veículos de imprensa (Brasil de Fato, CNN Brasil, Estadão, G1, UOL Notícias). Novos desdobramentos a qualquer momento.
Washington — Quase 48 milhões de eleitores já votaram de forma antecipada nos Estados Unidos para as eleições de meio de mandato, as chamadas midterms, segundo dados do Election Lab da Universidade da Flórida consolidados até o meio-dia da última sexta-feira. O volume atingiu exatamente 47.922.669 cédulas depositadas e superou o recorde anterior para esse tipo de eleição, estabelecido em 2022, quando 45,9 milhões de cidadãos exerceram o direito antes do dia oficial de votação.
A votação funciona de maneira descentralizada, sob coordenação direta dos 50 estados norte-americanos, sem um órgão centralizador como o Tribunal Superior Eleitoral brasileiro. Todas as 435 vagas da Câmara dos Representantes, com mandatos de dois anos, estão em disputa. No Senado, que renova um terço de seus quadros a cada dois anos para mandatos de seis anos, 35 cadeiras são disputadas neste ciclo: 33 da Classe 2 e duas eleições especiais na Flórida e em Ohio para preencher as vagas deixadas por Marco Rubio e JD Vance.
O resultado define a correlação de forças dos dois últimos anos da presidência de Donald Trump, cujo partido atualmente mantém o controle de ambas as Casas do Congresso. Pesquisas de opinião mostram um cenário desfavorável para o governo republicano. Conforme o levantamento Reuters/Ipsos divulgado em 19 de outubro, 66% dos eleitores desaprovam a gestão federal, impulsionados pela alta no custo de vida e pela condução da economia do país.
Entre os que já votaram está o papa Leão XIV, que enviou sua cédula pelo correio para Chicago, em Illinois, cidade onde nasceu e cresceu. O serviço de imprensa do Vaticano informou que o pontífice exerceu seu direito civil de voto como cidadão norte-americano, tornando-se o primeiro papa a registrar voto em uma eleição na história recente.
Custo de vida e mobilização de minorias nas urnas
Cerca de 36 milhões de cidadãos latinos estão aptos a participar do pleito, com projeções que indicam até 39 milhões de pessoas, apontam dados de organizações civis e pesquisas eleitorais. A comunidade soma cerca de 70 milhões de indivíduos no país, dos quais cerca de 80% detêm cidadania americana. No levantamento da CNN publicado em 21 de outubro, os eleitores latinos registraram preferência por candidatos democratas com uma margem de 40 pontos percentuais sobre os republicanos.
De acordo com o Pew Research Center, a economia lidera as preocupações desse grupo, citada por 86% dos entrevistados, seguida por saúde (80%), educação (75%), o futuro da democracia (69%) e imigração (64%). Na divisão econômica, os preços dos combustíveis e da moradia aparecem no topo das queixas, ambos com 80% de menções, acompanhados pela alimentação e bens de consumo diário, com 78%.
O impacto do custo de vida e da repressão migratória atinge diretamente a rotina dos trabalhadores. Operações federais de grande escala para deter trabalhadores sem documentos em 2025 reduziram o consumo e retraíram atividades comerciais. Empreendimentos de veículos usados no Texas, por exemplo, registraram queda de até 40% nas vendas voltadas ao público hispânico diante do receio generalizado de circulação nas ruas.
A oposição a Trump mobiliza frentes partidárias e movimentos à esquerda do espectro político norte-americano. Cerca de 131 candidaturas pelo país contam com o apoio formal da organização Socialistas Democráticos da América (DSA), que disputam filiados à legenda democrata. O grupo avançou em representação a partir de figuras públicas como as deputadas federais Alexandria Ocasio-Cortez e Rashida Tlaib, o senador Bernie Sanders e a recente vitória eleitoral de Zohran Mamdani para a prefeitura de Nova York.
Reflexos internacionais e disputa nos estados
O embate norte-americano repercute na política do Brasil após parlamentares do Partido Democrata questionarem a concessão de visto ao candidato derrotado à Presidência brasileira Flávio Bolsonaro (PL). Integrantes da bancada oposicionista em Washington utilizam a permanência do político investigado no país para confrontar a gestão de Trump e o secretário de Estado, Marco Rubio, denunciando o acolhimento enquanto a Casa Branca impõe barreiras severas contra imigrantes e refugiados da América Latina.
Nos estados, os eleitores definem ainda cargos executivos estratégicos, como os governos de Ohio e Maryland — onde o governador Wes Moore disputa a reeleição —, além da prefeitura de Los Angeles e postos em legislativos locais. A participação nos estados do Kansas, Carolina do Norte e Carolina do Sul supera os ciclos passados, com relatos de afluência até dois terços superior a 2022 no território do senador republicano Roger Marshall.
A eleição de 3 de novembro determinará se o Partido Democrata assumirá o controle do Poder Legislativo para barrar a pauta do Executivo e instalar comissões de apuração contra a gestão federal, ou se os republicanos conservarão a maioria no Capitólio para os dois anos finais da gestão Trump.
As eleições de meio de mandato nos Estados Unidos ocorrem a cada dois anos e historicamente impõem derrotas ao partido que ocupa a Casa Branca. No atual mandato de Donald Trump, o Partido Republicano iniciou o ciclo com o comando simultâneo da Câmara dos Representantes e do Senado. Contudo, a escalada inflacionária, o endurecimento das operações migratórias contra comunidades latinas e as divisões internas entre a cúpula conservadora e setores operários abriram espaço para o favoritismo democrata e a expansão de candidaturas progressistas ligadas aos Socialistas Democráticos da América.