Servidores confessam áudios com ameaça a indígenas mas negam plano de ataque em MS, diz PF

Funcionários públicos de Tacuru falaram em envenenar água de aldeia Guarani-Kaiowá após eleições. Governo federal reforça efetivo da Força Nacional na fronteira.

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Servidores confessam áudios com ameaça a indígenas mas negam plano de ataque em MS, diz PF
Foto: Arquivo Gazeta Estrela Vermelha
🚨 PLANTÃO GAZETA: MATÉRIA EM ATUALIZAÇÃO

Informações de última hora confirmadas simultaneamente por múltiplos veículos de imprensa (Agência Brasil, G1, Metrópoles, Nexo Jornal, UOL Notícias). Novos desdobramentos a qualquer momento.

Mato Grosso do Sul — Dois servidores da Prefeitura de Tacuru admitiram à Polícia Federal que gravaram mensagens de voz com ameaças contra indígenas da Aldeia Sassoró, no sul do estado. Os investigados afirmaram em depoimento que não pretendiam colocar os ataques em prática, informou a corporação neste sábado (31). As gravações circularam logo após o resultado do segundo turno das eleições presidenciais e falavam sobre envenenar a água consumida pela comunidade Guarani-Kaiowá.

O diretor de Amazônia e Meio Ambiente da Polícia Federal, Humberto Freire, declarou que os dois funcionários foram ouvidos e liberados em seguida. Segundo o diretor, os investigados justificaram as declarações com o consumo de bebidas alcoólicas e com o clima da disputa partidária local. Eles também alegaram aos policiais que não teriam recursos nem meios reais para concretizar o envenenamento.

"Ontem já foram ouvidas essas pessoas, confirmaram a prática dos áudios, mas reafirmaram que foi questão de bebedeira e uma questão de aquecimento da questão política logo após o resultado da eleição, mas que não tinha intuito de materializar a ameaça", afirmou Humberto Freire durante agenda em Mato Grosso do Sul. A polícia não divulgou publicamente a identidade dos envolvidos.

O comando da PF ressaltou que as apurações não vão parar diante das versões dadas pelos servidores no interrogatório. "Eles chegaram a relacionar, dizer que seria uma brincadeira, que foi uma palavra mal colocada, que foi uma besteira dita", relatou Freire. O diretor explicou que os agentes continuam reunindo provas para instruir o inquérito policial e que o órgão não admitirá nenhum tipo de violência contra indígenas ou crimes motivados por disputas políticas.

A investigação policial foi aberta assim que as mensagens começaram a circular em grupos de mensagens da cidade de Tacuru. Um dos servidores investigados já foi afastado de suas funções públicas. Com a conclusão de todas as diligências, a PF encaminhará o relatório final para o Ministério Público Federal e para o Poder Judiciário, instâncias que vão decidir sobre eventuais denúncias criminais.

Reforço da Força Nacional e comitiva de ministros

Uma comitiva do governo federal esteve neste sábado (31) nas aldeias da região de fronteira com o Paraguai para monitorar a segurança das comunidades. O grupo reuniu o ministro da Justiça e Segurança Pública, Wellington César Lima e Silva, o ministro dos Povos Indígenas, Eloy Terena, e a ministra dos Direitos Humanos e da Cidadania, Janine Mello. Pela manhã, os ministros estiveram na aldeia Taquaperi, em Coronel Sapucaia, e à tarde foram até a aldeia Sassoró, em Tacuru.

O ministro da Justiça rechaçou o argumento de que o caso possa ser minimizado pelas alegações de embriaguez apresentadas pelos autores dos áudios. "Tentaram desqualificar a seriedade da ameaça, alegando que não teriam condição de fazer, que teria sido algo fruto de uma bebedeira ou algo parecido. Mas tudo isso vai ser apurado. A Polícia Federal já ouviu os dois e nós vamos, assim que a Polícia Federal concluir o expediente, detalhar a motivação e as alegações deles", afirmou Lima e Silva.

Durante a visita, o ministro da Justiça anunciou a ampliação do efetivo da Força Nacional de Segurança Pública no estado. A tropa passará a atuar sob o modelo batizado de "Minuto a Minuto", operando diretamente no terreno e pronta para deslocamento imediato após acionamento da PF, da Polícia Rodoviária Federal ou das forças policiais estaduais. O programa utilizará imagens e detecção imediata da ocorrência para identificar autoria e materialidade de atos violentos.

A mobilização ministerial ocorreu após a Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib) denunciar mais de 30 episódios de violência contra comunidades em Mato Grosso do Sul depois das eleições. O ministro Eloy Terena explicou que o governo recebeu dez denúncias formalmente filtradas, sendo quatro delas localizadas no estado. Segundo o ministro, apenas o episódio do áudio sobre o envenenamento da água tem ligação direta comprovada com motivação política até este momento, enquanto outros relatos, como atropelamentos, passam por averiguação preliminar.

O ministro dos Povos Indígenas assegurou que o monitoramento da qualidade da água potável na aldeia Sassoró terá fiscalização reforçada pelos órgãos competentes. O Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania informou que colocou à disposição das vítimas locais o Programa de Proteção aos Defensores de Direitos Humanos, Comunicadores e Ambientalistas. Segundo dados divulgados pela própria pasta, mais de 80 indígenas do estado de Mato Grosso do Sul já contam atualmente com medidas de proteção do programa federal.

📌 CONTEXTO E ANTECEDENTES

A região de fronteira no sul de Mato Grosso do Sul concentra um histórico crônico de disputas fundiárias e violência armada contra os povos Guarani-Kaiowá. O acirramento das tensões políticas locais pós-eleição motivou a atuação emergencial de ministérios federais na área. A Força Nacional mantém operações permanentes em terras indígenas do estado para prevenir confrontos diretos e garantir a segurança física das aldeias monitoradas pela União.