Moradores organizam vaquinha para menino humilhado por influenciadora ao vender balas em Fortaleza
Criança autista de 9 anos perdeu a mãe e trabalha na orla para ajudar nas despesas da família; criadora de conteúdo gravou pedido de desculpas após repercussão negativa
Informações de última hora confirmadas simultaneamente por múltiplos veículos de imprensa (Estado de Minas, Metrópoles, O GLOBO, Tribuna do Norte). Novos desdobramentos a qualquer momento.
Fortaleza — Uma mobilização de solidariedade reuniu moradores e internautas em uma campanha de arrecadação financeira para a família de Matheus, de 9 anos. O menino vendia balas no Mercado dos Peixes, na orla de Fortaleza, quando foi ridicularizado pela influenciadora digital Valéria Diniz ao ser abordado sobre suas preferências políticas.
O episódio começou quando o garoto se aproximou da mesa em que a influenciadora estava acompanhada de amigas para oferecer doces. Na gravação compartilhada no perfil de Valéria, ela questiona o voto da mãe da criança e pede para o menino fazer o gesto com as mãos em formato de "L", em referência a Luiz Inácio Lula da Silva.
Assim que Matheus faz o gesto solicitado, a mulher recusa os produtos e diz: "Faz o 'L', não quero não, obrigada. Vai lá com a sua mãe". Na publicação original, a criadora de conteúdo legendou o vídeo com a frase "Vai na mamãe e manda ela fazer o L". Pessoas sentadas à mesa riram da situação da criança durante o registro.
A abordagem provocou forte revolta nas redes sociais e iniciou uma rede de apoio ao garoto. Matheus é autista, perdeu a mãe vítima de uma doença e mora com a avó. Para ajudar nos custos da casa, ele trabalha vendendo guloseimas no litoral cearense. Após o caso ganhar visibilidade nacional, a página de Matheus e da avó no Instagram passou a somar 265 mil seguidores.
Mobilização popular e desdobramentos do episódio
A arrecadação organizada em favor da família recebeu apoio de internautas e de criadores de conteúdo na internet. Grupos de entregadores e motociclistas locais também formaram comboios e iniciativas de suporte financeiro para o menino. No meio político, Janones disse "Estou agindo" sobre a possibilidade de o garoto subir a rampa com Lula.
Diante das críticas em massa na internet, Valéria Diniz retirou a publicação inicial do ar e desativou sua conta original, que registrava cerca de 70 mil seguidores. Em um perfil secundário, a influenciadora divulgou um vídeo com pedidos de desculpas destinados a Matheus e aos parentes do jovem.
"Primeiramente, eu queria pedir perdão pra família do Matheus, pro Matheus e pra todas as pessoas que se sentiram ofendidas pelo vídeo que tá circulando entre as redes e dizer que eu não tive nenhuma intenção de humilhar ele", afirmou Valéria em seu posicionamento gravado.
A apoiadora do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) argumentou que a cena aconteceu em uma confraternização informal. "Não tive nenhuma intenção de humilhar ele, nem o oprimir, nem nada do tipo, gente. Até porque eu tenho dois filhos também, eu tenho um filho que é autista, entendeu? E eu jamais aceitaria que fizessem isso com um filho meu e eu não tenho capacidade para fazer isso com uma criança", declarou.
A influenciadora alegou que o menino permaneceu no espaço e conversou com ela depois da gravação das imagens. Ela disse ainda que não imaginava que a abordagem causaria sentimento de humilhação ao vendedor ambulante.
No mesmo comunicado, a blogueira relatou que passou a receber hostilidades digitais e ameaças direcionadas à integridade física de seus filhos, inclusive no ambiente escolar. "Parem de atacar os meus filhos, eles não têm culpa, eles só são duas crianças", declarou.
A mulher também apontou o surgimento de contas falsas que utilizam seu nome para espalhar conteúdos enganosos. Ela declarou que tem intenção de encontrar o garoto pessoalmente para pedir perdão formal e se colocou à disposição para ajudar o menino no que estiver ao seu alcance.
O caso insere-se em um histórico de episódios em que trabalhadores informais e pessoas vulneráveis são constrangidos publicamente em disputas ideológicas nas redes sociais. A exposição de menores em situação de trabalho infantil informal viola garantias de proteção integral do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA). A reação imediata da comunidade e de entidades civis tem resultado em campanhas comunitárias de amparo material para reduzir o impacto financeiro sofrido por famílias desassistidas.