Partido de Trump perde maiorias no Congresso dos EUA após rejeição a data centers

Pesquisa da NBC News com eleitores na boca da urna mostra que 76% eram contra data centers em suas comunidades e 57% veem a inteligência artificial fazendo mais mal que bem.

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Donald Trump discursa ao lado de lideranças políticas (imagem de arquivo).
Foto: The White House from Washington, DC / Public domain via Wikimedia Commons

Os eleitores dos Estados Unidos deram um recado contrário à instalação de data centers em suas comunidades e ao aumento do custo de vida ligado a essas estruturas. Segundo a Agência Brasil, a derrota do partido do presidente Donald Trump, que perdeu as maiorias na Câmara e no Senado, também foi influenciada pelo temor da maioria da sociedade estadunidense em relação ao avanço da inteligência artificial.

A pesquisa da emissora de TV NBC News, feita com eleitores na boca da urna, mostra o tamanho do mal-estar. Dos entrevistados, 76% eram contrários à construção de data centers em suas comunidades. Outros 57% acreditam que a inteligência artificial (IA) fará mais mal que bem à sociedade.

Data centers são instalações que processam os dados usados pelas IAs. Eles consomem muita energia e muita água, o que eleva o preço desses insumos nas cidades onde são instalados.

O economista André Roncaglia, professor da Universidade de Brasília (UnB), explicou à Agência Brasil que os estados com menos regulação para data centers receberam mais investimentos. Esse modelo, segundo ele, gerou impactos ambientais e encareceu a energia e a água, o que foi mobilizando cada vez mais reação popular.

Plebiscitos locais

Dos 47 plebiscitos já realizados sobre o tema, apenas um resultado foi favorável ao desenvolvimento de data centers. A maioria propõe restrições ou proibições para projetos com demanda igual ou superior a 25 megawatts, porte típico dos centros de hiperescala.

A Ballotpedia, organização não governamental que sistematiza esses resultados, aponta índices de rejeição acima de 60%. Em Ottawa, no Kansas, a proibição de construir centros que usem mais de 25 megawatts de energia venceu com 72% dos votos.

O diretor-executivo da Brazil Office Alliance, Paulo Abraão, afirmou que 56% dos eleitores consideraram a IA e os data centers fatores importantes ou decisivos na hora do voto. Para ele, o fenômeno atravessa as divisões partidárias tradicionais. "Não se trata simplesmente de uma rejeição à tecnologia, mas de uma exigência de controle democrático sobre sua expansão", disse.

Abraão resume a questão que organiza o debate: quem ficará com os lucros da revolução tecnológica e quem pagará seus custos sociais e ambientais. Ele avalia que a IA entrou de vez na agenda eleitoral americana e deve ser tema relevante na disputa presidencial de 2028. Parte disso, segundo ele, decorre do desgaste da aliança entre Trump e Musk junto à opinião pública.

Agenda democrata e "autorregulação"

Os democratas defenderam maior regulação do setor, em posição contrária à de Trump, que rejeita qualquer regra capaz de inibir investimentos. Com a maioria conquistada na Câmara e no Senado, o mercado passou a sinalizar que o ambiente sem regulação para IA e data centers deve mudar. Segundo a Agência Brasil, as ações de IA despencaram após a eleição.

Para Roncaglia, o mercado financeiro costuma se ajustar sempre que muda a perspectiva política, e essa correção já era esperada. Ele prevê um processo de acomodação do setor, com empresas buscando os caminhos regulatórios mais favoráveis a seus interesses, o que chama de arbitragem regulatória.

Existe a expectativa de que os democratas apresentem projetos de lei para regulamentar a IA, com o objetivo de proteger consumidores e impor restrições ao desenvolvimento da tecnologia. A deputada eleita pelo Arizona Yassmin Ansari afirmou que o topo da agenda democrata no dia 1 precisa ser "uma pausa no desenvolvimento de IA avançada, a regulação dessa indústria fora de controle e uma proibição à superinteligência artificial".

Diante do desgaste com a população, Trump anunciou em setembro uma agenda de "autorregulação". Pela proposta, as próprias big techs definiriam os mecanismos de segurança e controle que teriam de seguir.

Segundo a Agência Brasil, os eleitores também rejeitaram o aumento do custo de vida associado a essas megaestruturas. Já a questão de fundo, para Abraão, é saber quem ficará com os lucros da expansão dos data centers e quem pagará pelos custos sociais e ambientais.

Fontes: Agência Brasil — “Eleitores dos EUA derrotam big techs e ações de IA despencam”.