Irã intensifica diplomacia com Rússia e Golfo enquanto Trump ameaça retomar ataques

Teerã apresenta nova proposta nuclear por meio do Catar e condiciona negociações a sete exigências dos EUA

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Presidente Donald Trump discursa em sessão conjunta no Congresso dos EUA (imagem de arquivo).
Foto: The White House / Public domain via Wikimedia Commons

O Irã intensificou os contatos diplomáticos na quinta-feira, em meio a sinais do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, de que pode retomar ataques em grande escala contra o país. Segundo a Al Jazeera, Teerã ofereceu aos americanos uma nova proposta de paz e sobre o programa nuclear, por meio de mediadores do Catar. O texto só será discutido depois que Washington atender a sete exigências iranianas.

A agência Reuters informou, citando um alto funcionário iraniano, que os EUA estão examinando a proposta. Segundo a Al Jazeera, o Irã condiciona a reabertura do Estreito de Ormuz e a retomada das negociações, inclusive sobre o programa nuclear, ao cumprimento dessas sete exigências. Já os EUA insistem que um acordo sobre a capacidade nuclear iraniana faça parte de qualquer cessar-fogo antes da retomada das negociações mais amplas. As exigências incluem o fim das sanções contra o Irã, a liberação de bens iranianos congelados e o fim do bloqueio naval americano aos portos do país, na região do Estreito de Ormuz. Esse estreito é uma passagem estratégica por onde normalmente circula cerca de um quinto do petróleo mundial.

Segundo a Axios, um funcionário americano disse que o Comando Central dos EUA (Centcom) se prepara para retomar grandes operações militares no Irã e aguarda apenas a ordem de Washington. Na quinta-feira, Trump afirmou a jornalistas que os EUA podem ter de "destruir o resto" do Irã e que as pessoas "saberão em breve" se ele decidir agir. A fala ocorre depois de os republicanos sofrerem uma derrota nas eleições legislativas de meio de mandato, em grande parte pela revolta popular com a guerra e com a alta dos preços da energia. Trump, segundo a Al Jazeera, se recusou a descartar novos ataques e observadores consideram imprevisível seu próximo passo; o ex-diplomata iraniano Hadi Afghahi avalia, porém, que Trump "realmente não quer ir à guerra", embora ainda esteja cercado por um grupo de falcões.

Aproximação com Moscou

O conselheiro de segurança iraniano Mohsen Rezaei viajou a Moscou e se encontrou com o presidente russo, Vladimir Putin, no Kremlin, na quinta-feira. Ele levou uma mensagem do líder supremo iraniano, Mojtaba Khamenei, cujo conteúdo não foi detalhado pela mídia estatal iraniana. Rezaei chamou o encontro de "uma troca extremamente importante". Em outubro, Putin já havia dito que a Rússia estava disposta a participar da mediação para encerrar a guerra.

Rezaei afirmou que conversou com Putin sobre a construção de gasodutos da Rússia para o Irã. Segundo ele, os dutos resolveriam a escassez de gás no território iraniano e facilitariam a venda de energia russa a países vizinhos. Segundo Teerã, as refinarias de gás natural do próprio Irã foram atingidas durante a fase mais intensa da ofensiva americano-israelense, que durou 40 dias.

O jornal Financial Times informou que a Rússia concordou em fornecer ao Irã 90 lançadores de mísseis guiados montados em helicópteros, apesar de precisar de seu próprio armamento na guerra contra a Ucrânia. A publicação citou um cronograma de produção de uma fabricante russa de defesa referente a 2024 e 2025. Já o Ministério das Relações Exteriores russo recomendou que cidadãos evitem viajar ao Irã por causa dos riscos remanescentes de uma nova escalada.

Mohsen Rezaei em registro oficial (imagem de arquivo).
Mohsen Rezaei em registro oficial (imagem de arquivo). (Foto: mehrnews.com / CC BY 4.0 via Wikimedia Commons)

Conversas com vizinhos do Golfo

O chanceler iraniano, Abbas Araghchi, telefonou na quinta-feira para líderes de países do Golfo. Ele falou com o chanceler dos Emirados Árabes Unidos, Sheikh Abdullah bin Zayed Al Nahyan, segundo o canal de Telegram de Araghchi, e com o chanceler saudita, Faisal bin Farhan Al Saud, segundo o Ministério das Relações Exteriores da Arábia Saudita. Também conversou com representantes de Kuwait, Turquia, Catar e Omã.

Segundo o Ministério das Relações Exteriores de Omã, a segurança da passagem pelo Estreito de Ormuz foi o principal tema da conversa com Araghchi. O Catar, afirmou que o primeiro-ministro, Sheikh Mohammed bin Abdulrahman Al Thani, defendeu a liberdade de navegação marítima. Na mesma semana, o emir do Catar, Sheikh Tamim bin Hamad Al Thani, conversou por telefone com Trump sobre a redução das tensões regionais.

Os vizinhos enfrentam um risco direto, porque durante os combates mais intensos o Irã atingiu bases de países do Golfo que abrigam forças americanas, além de instalações civis e energéticas. Autoridades iranianas repetiram que qualquer Estado que ajude os EUA a atacar o Irã poderá ser um "alvo legítimo". Teerã também citou cabos, centros de dados e instalações de inteligência artificial na região como possíveis alvos caso a guerra volte.

Na semana que antecedeu a eleição, os EUA afirmaram ter feito "ataques defensivos" nas ilhas e localidades iranianas de Qeshm e Bandar Lengeh, no Estreito de Ormuz. Pouco antes, o Irã derrubou dois drones americanos de reconhecimento perto de Qeshm. Teerã afirmou que vai responder se Washington retomar os ataques em maior escala.

A Guarda Revolucionária iraniana, na marinha, disse que pelo menos sete petroleiros pegaram fogo após atingirem minas ao tentar atravessar o estreito por "rotas não autorizadas" perto de Omã. Na sexta-feira, a Guarda afirmou que mais dois navios foram atingidos e pararam. Ela acusou os petroleiros de navegar "com o apoio" dos militares americanos. Organizações marítimas não confirmaram os incidentes mais recentes.

O controle do estreito é o principal impasse nas negociações para encerrar a guerra, iniciada em fevereiro. O Irã limita o tráfego pela via e concedeu isenções ao Iraque, ao Catar, à Índia e à China.

Fontes: Al Jazeera — “play”.