Comboio retira civis de cidade ucraniana ocupada em trégua negociada com a Rússia
Moradores de Oleshky deixaram a área da linha de frente em 25 ônibus e puderam optar entre seguir para a Rússia ou retornar à Ucrânia por rota de 1.600 km
Informações de última hora confirmadas simultaneamente por múltiplos veículos de imprensa (CNN Brasil, Folha de S.Paulo, G1, Poder360, VEJA). Novos desdobramentos a qualquer momento.
Oleshky — Um comboio de 25 ônibus e nove ambulâncias retirou civis da cidade ucraniana de Oleshky, que está sob ocupação das forças militares russas, em uma operação humanitária conjunta realizada neste sábado (31). O comboio entregou remédios e mantimentos aos habitantes e transportou as famílias que aceitaram deixar o município, situado na margem leste do rio Dniepre, no sul da Ucrânia.
Os moradores retirados puderam escolher o destino de acolhimento. As autoridades organizaram a divisão dos evacuados entre os que decidiram migrar para território russo e os que preferiram retornar às regiões sob controle do governo da Ucrânia. O presidente ucraniano Volodymyr Zelensky confirmou que os primeiros cidadãos que optaram por voltar ao país concluíram a viagem e entraram no território nacional.
A população que escolheu retornar à Ucrânia enfrentou um trajeto indireto de mais de 1.600 quilômetros. Embora a cidade esteja a apenas cinco quilômetros das posições ucranianas em Kherson, na outra margem do rio, a presença de minas terrestres e drones de combate impede a travessia frontal. O deslocamento seguiu de ônibus até a Crimeia, península anexada pela Rússia em 2014, e parou na cidade de Armyansk para a triagem dos passageiros.
De Armyansk, os veículos transportaram o grupo até Anapa, no sul da Rússia. Os civis embarcaram em três aviões com destino a Gomel, em Belarus, segundo informou a agência estatal Belta. De solo bielorrusso, os evacuados cruzaram a fronteira de ônibus para alcançar a região ucraniana de Chernihiv. O chefe do gabinete presidencial da Ucrânia, Kyrylo Budanov, e o parlamentar David Arakhamia confirmaram o esquema de trânsito montado entre os países.
Crise humanitária e rota de 1.600 quilômetros
A cidade de Oleshky registrou uma queda populacional severa desde o início da guerra, em fevereiro de 2022. O município tinha mais de 24 mil habitantes antes da invasão e hoje abriga cerca de 2 mil moradores. A área sofreu danos estruturais graves e inundações causadas pelo rompimento da barragem de Kakhovka, ocorrido rio acima em junho de 2023.
Moradores relataram a escassez aguda de água e de alimentos básicos durante os meses de ocupação. Habitantes disseram que chegaram a caçar pombos para conseguir comer e que sobreviviam com o equivalente a uma xícara de arroz ou trigo-sarraceno por dia. As pessoas precisavam atravessar trechos cercados de explosivos, conhecidos na região pelo nome de "estrada da morte", para buscar mantimentos essenciais.
A comissária de direitos humanos da Rússia, Yana Lantratova, e o ouvidor de direitos humanos da Ucrânia, Dmytro Lubinets, acompanharam o embarque dos passageiros e conversaram com a população local. A operação transcorreu sem registro de confrontos ou incidentes na linha de contato militar, embora Lubinets tenha alertado que muitos civis ainda optaram por permanecer nas suas casas no município.
A televisão estatal russa veiculou imagens de caixas de doações humanitárias com símbolos nacionais do país. Os pacotes eram carregados por voluntários com camisetas com os dizeres "Equipe de Putin — Frente Popular". As autoridades não divulgaram o total exato de pessoas resgatadas no comboio.
Disputas diplomáticas e continuidade das hostilidades
O cessar-fogo pontual firmado para a saída dos civis representou a trégua de maior duração em uma área de combate desde o começo da guerra. Moscou e Kiev atribuíram o sucesso da mediação das conversas a Melania Trump. O papa Leão XIV também participou das tratativas preliminares que viabilizaram as garantias de segurança no trajeto.
O Comitê Internacional da Cruz Vermelha informou que não recebeu convite para atuar na logística da ação humanitária, mas declarou prontidão para fornecer apoio aos cidadãos. A Organização das Nações Unidas também confirmou que não recebeu solicitação formal dos governos envolvidos para intervir no transporte.
O governo russo tratou a desocupação como uma situação de exceção e negou que a operação aponte avanço nas negociações gerais para o encerramento do conflito. Ataques aéreos e bombardeios russos atingiram sete regiões ucranianas durante a noite, incluindo Kiev e Dnipro. As negociações diretas de paz, mediadas pelo governo dos Estados Unidos, têm previsão de retomada em novembro, após nove meses de paralisação.
Tropas da Rússia ocuparam Oleshky nos primeiros dias da invasão em larga escala, em fevereiro de 2022, fixando posições defensivas na margem oriental do rio Dniepre, em frente à capital regional de Kherson. O isolamento da população civil aumentou após a destruição da represa de Kakhovka em junho de 2023, episódio que inundou dezenas de comunidades ribeirinhas e multiplicou a presença de minas terrestres arrastadas pelas águas ao longo da linha de frente.