Unesco registra 189 jornalistas mortos em 2024 e 2025, e impunidade sobe para 86%
Palestina lidera as mortes, e o Brasil teve um caso, no Pará, segundo relatório da organização
A Unesco contabilizou 189 jornalistas mortos no mundo em 2024 e 2025, segundo o Relatório sobre a Segurança de Jornalistas e o Perigo da Impunidade. A maior parte das mortes, 127, ocorreu em países em zonas de conflito, o equivalente a 67% do total. O número é 24% maior que o do biênio 2022/2023.
Cinquenta dessas mortes foram causadas por drones. Também houve ataques a escritórios de veículos de imprensa e a instalações que abrigavam jornalistas nessas áreas, com pelo menos 36 mortos. Em um dos casos, nove profissionais morreram de uma só vez.
Em pelo menos 15 casos, há indícios de que os jornalistas foram atingidos mesmo usando coletes com a palavra "imprensa" ou dentro de carros claramente identificados. Indícios são sinais que apontam numa direção, mas ainda não são prova conclusiva de intenção.
Fora das zonas de conflito, foram 62 mortes no biênio, o menor número em 18 anos. Dessas, 17 aconteceram nos escritórios, 33 nos veículos e 20 na própria casa, em alguns casos junto com familiares. Quatro morreram em ataques terroristas e sete em manifestações, atingidos por manifestantes ou por forças policiais.
Política, crime e corrupção entram na conta
Das 189 mortes, 104 ocorreram enquanto jornalistas cobriam conflitos armados. Outras 38 vítimas cobriam política, 22 trabalhavam em reportagens sobre atividades criminosas e outras apuravam casos de corrupção.
Para Sylvie Couldray, diretora de Liberdade de Expressão e Desenvolvimento da Mídia da Unesco, "isso mostra que fazer reportagens sobre alguns assuntos pode ser tão perigoso quanto reportar em uma zona de guerra".
Entre os mortos, cinco tinham entre 15 e 24 anos e 20 tinham entre 25 e 29. Foram mortas 14 mulheres, 7% do total, o menor percentual desde o biênio 2012/2013. Treze dessas jornalistas morreram em países em conflito.
A Palestina, atingida por ataques de forças israelenses desde 2023, foi o local com mais mortes: 62, um terço do total do período.
Brasil e a impunidade
No Brasil, foi registrada uma morte: Luís Augusto Carneiro da Costa, o Luisinho Costa, assassinado no estúdio da Rádio Guarany, em Abaetetuba, no nordeste do Pará, em maio de 2025. Segundo a Polícia Civil do Pará, o inquérito foi concluído e enviado à Justiça, com quatro pessoas indiciadas.
O relatório também trata da impunidade. Desde 2006, 1.641 jornalistas foram assassinados no mundo, mas apenas 223 casos (14%) foram solucionados pelo sistema judiciário. Em 1.013 casos (66%), os processos seguem em andamento ou não foram resolvidos. Em 321 (20%), a Unesco não recebeu resposta das autoridades.
Somados, os casos não solucionados e os sem resposta chegaram a 86% neste ano, um ponto a mais que em 2024. Foi a primeira alta desde 2012. Para Mariya Gabriel, diretora de Comunicação e Informação da Unesco, "proteger jornalistas e acabar com a impunidade são essenciais para salvaguardar a liberdade de expressão e o direito do público à informação".
O levantamento trata apenas de assassinatos, mas a organização lembra que há outras formas de violência, como sequestros, desaparecimentos forçados, detenções arbitrárias, ataques online baseados no gênero e limitações à circulação dos profissionais.
A Unesco procurou autoridades de 78 países com registros de violência contra jornalistas. Desse total, 38 forneceram informações sobre medidas de segurança e combate aos crimes. O Brasil informou que adotou o Protocolo Nacional para a Investigação de Crimes contra Jornalistas e Comunicadores Sociais, lançado em abril deste ano pelo Ministério da Justiça e Segurança Pública. O protocolo foi incluído no repositório de mecanismos nacionais de segurança da Unesco.
Fontes: Agência Brasil — “Unesco: 189 jornalistas foram mortos no mundo em 2024 e 2025”.