Governo de SP exonera coordenadora com deficiência após crítica a fala de Flávio Bolsonaro
Silvana Gimenes perdeu cargo de confiança na Secretaria dos Direitos da Pessoa com Deficiência; gestão estadual alega ajustes na equipe
Informações de última hora confirmadas simultaneamente por múltiplos veículos de imprensa (Brasil 247, CartaCapital, Diário PcD, Diário do Centro do Mundo). Novos desdobramentos a qualquer momento.
O governo Tarcísio de Freitas (Republicanos) exonerou a coordenadora de Desenvolvimento de Programas da Secretaria de Estado dos Direitos da Pessoa com Deficiência, Silvana Gimenes. O ato foi publicado no Diário Oficial do Estado após a servidora criticar uma declaração capacitista feita pelo senador Flávio Bolsonaro (PL) contra o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).
A publicação da resolução ocorreu poucos dias após a realização do debate presidencial na TV Globo, exibido em 23 de outubro. Durante o programa, Flávio usou o termo "nove dedos" para atacar o petista. A frase faz referência direta à perda do dedo mínimo da mão esquerda do presidente, amputado aos 17 anos em um acidente de trabalho metalúrgico.
A dispensa de Silvana foi assinada pelo secretário-chefe da Casa Civil, Nerylson Lima da Silva, sob a Resolução de 27 de outubro, que circulou no Diário Oficial no dia 28. O posto comissionado de nível 1.13 era ocupado por ela na Coordenadoria de Desenvolvimento de Programas da pasta. Silvana permanece no quadro funcional do Estado, onde atua há 41 anos.
Socióloga, mestre em Administração na área de Gestão e Regionalidade e mulher com paralisia cerebral, a servidora tem 65 anos. Ela dedicou cerca de três décadas à formulação de políticas públicas voltadas a grupos vulneráveis. Sua manifestação contra o candidato do PL foi publicada nas redes sociais no sábado seguinte ao debate.
Manifestação nas redes e resposta do governo
Na postagem, Silvana criticou o uso de termos depreciativos contra características físicas. “Ao ouvir o 22 chamar Lula de ‘nove dedos’, apenas constatei o que sempre digo: que o preconceito, o racismo, o capacitismo e a LGBTfobia podem estar escondidos, mas vem sempre à tona”, escreveu a coordenadora.
Ela também abordou a vivência pessoal de exclusão e violência simbólica. “Sou mulher LGBT com deficiência e luto por respeito e dignidade. Só quem sempre é alvo sabe o quanto é doloroso ser a piada por ter uma deficiência, doença rara ou condição congênita. Não é ato falho, brincadeira, muito menos bobagem. Esse linguajar revela a postura de alguém que não se importa com os outros, com a diversidade dos corpos existentes. Esse 22 não nos representa”, completou.
A Secretaria dos Direitos da Pessoa com Deficiência, chefiada por Marcos da Costa, declarou que o cargo era de livre nomeação e exoneração. A pasta justificou o desligamento como parte de “ajustes administrativos na secretaria”. O governo paulista não respondeu aos pedidos de esclarecimento sobre a existência de critérios técnicos prévios ou sobre a transição dos projetos coordenados pela servidora.
Silvana afirmou que recebeu um telefonema comunicando a demissão imediata. “A justificativa utilizada pelo secretário Marcos da Costa para o meu superior foi que haveria mudanças na equipe e que ele começaria por mim. Dito isso, recebi uma ligação comunicando que voltasse para minha casa, pois não fazia mais parte da equipe”, relatou.
Repercussão política e histórico funcional
A servidora evitou classificar a medida como represália direta do Palácio dos Bandeirantes, mas destacou o ineditismo da decisão em sua carreira. “Mudanças são comuns em novas gestões, por isso, não tenho o que falar ou comentar. Só posso supor o motivo e, no campo das suposições, não há o que falar”, afirmou. Em outra mensagem, ela registrou com ironia: “depois de 41 anos de atuação no serviço público, esta é a minha primeira exoneração”.
A polêmica teve origem em uma frase dita por Flávio Bolsonaro no embate televiso, quando o senador afirmou que Lula “dá com uma mão e tira com nove dedos”. O comentário gerou repreensão imediata do presidente, que exigiu um pedido de desculpas em respeito aos trabalhadores brasileiros que sofrem mutilações em fábricas. Flávio recuou e pediu desculpas ainda durante o programa.
Silvana garantiu que continuará sua trajetória na defesa dos direitos humanos e da inclusão social fora do cargo executivo estadual.
A Secretaria de Estado dos Direitos da Pessoa com Deficiência de São Paulo foi criada para formular políticas de acessibilidade e combater a discriminação funcional. Tarcísio de Freitas apoiou formalmente a candidatura de Flávio Bolsonaro durante toda a campanha eleitoral de 2026.