Partidos árabes de Israel elegem recorde de 19 deputados e ouvem acusações de fraude do Likud

Segundo a Al Jazeera, a votação de 27 de outubro levou a investigações e prisões de ativistas e líderes palestinos cidadãos de Israel.

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Ayman Odeh em encontro com ativistas (imagem de arquivo).
Foto: Tsvia Gildor - צביה גילדור / CC BY-SA 4.0 via Wikimedia Commons

Os partidos árabes conquistaram 19 cadeiras no Knesset, o Parlamento israelense, na eleição de 27 de outubro. É o maior número já obtido pela bancada árabe, segundo a reportagem da Al Jazeera. A forte participação de eleitores árabes levou essas legendas a um papel decisivo, porque as cadeiras somadas empurram o bloco de oposição, liderado por Gadi Eisenkot, para além das 61 necessárias a uma coalizão de governo.

A reportagem ouviu Lama Yassin, de 31 anos, que dirigiu até as seções eleitorais de Arrabeh, sua cidade natal, onde os cidadãos palestinos de Israel são maioria esmagadora. Segundo ela, famílias inteiras foram votar juntas, de avós a netos. "Foi a primeira vez em muito tempo que senti esperança de mudança", afirmou.

A euforia durou pouco. Um dia após a votação, o Likud e figuras como Itamar Ben-Gvir acusaram os partidos árabes de roubar a eleição por meio de "suborno, ameaças, violência e falsificações". Segundo a reportagem, as acusações continuaram mesmo depois de a Comissão Central Eleitoral e a polícia afirmarem não ter encontrado nenhum sinal de fraude organizada.

Yassin também criticou a cobertura de canais israelenses, que convidaram judeus para falar sobre os eleitores árabes e quase não ouviram árabes. Para ela, o termo "terrorismo eleitoral", repetido pelo Canal 14, de extrema direita e alinhado ao premiê Benjamin Netanyahu, foi o mais repugnante que viu. Ela publicou no Instagram um vídeo que circulou entre palestinos, em que contrapõe a fala de israelenses sobre os árabes: são "irmãos e amigos" quando comem homus, mas "apoiadores do terror" quando buscam poder político.

Prisões e investigações após a votação

Em Jaffa, na madrugada de 3 de novembro, cerca de 15 agentes de segurança, alguns deles mascarados, invadiram a casa do jornalista e ativista Abed Abou Shehadeh e o prenderam diante dos dois filhos. Ele é acusado de ter "contatos com um agente estrangeiro". Um tribunal determinou que ele permaneça preso até 8 de novembro.

No sul, a polícia prendeu sete homens beduínos sob suspeita de planejar pagar pessoas para votar no Ra'am, partido árabe islamista. A legenda os chama de militantes e nega as acusações. O líder árabe Ayman Odeh também é investigado pelo Shin Bet, o serviço de inteligência interna, que é dirigido por David Zini, aliado de Netanyahu. A suspeita é de que ele recebeu dinheiro de fontes estrangeiras para influenciar o comparecimento às urnas. Odeh nega e fala em "perseguição política".

Thabet Abu Rass, especialista em relações entre judeus e árabes em Israel, afirmou à reportagem: "Estamos enfrentando todo o sistema israelense. Acho que também enfrentamos o Estado profundo". Ele havia previsto antes da eleição que 15 a 17 cadeiras atrairiam líderes partidários às portas das legendas árabes. Os partidos superaram essa expectativa, mas, segundo a reportagem, o resultado ainda não se traduziu em convites para o poder. Segundo a reportagem, 67 deputados, inclusive os das legendas árabes, recomendaram Eisenkot ao presidente para formar governo, e o bloco anti-Netanyahu sinalizou a remoção do presidente do Knesset, Amir Ohana, e a suspensão da reforma judicial. As legendas árabes planejam apoiar um inquérito estatal sobre as falhas de 7 de outubro. Abu Rass, porém, não vê aí uma parceria duradoura: segundo ele, Eisenkot "está contando conosco só pelos próximos meses".

O presidente Isaac Herzog, encarregado de escolher quem tentará formar governo, condenou "a grosseria e as expressões racistas" ouvidas recentemente. Segundo a mídia israelense, em reuniões com líderes partidários ele perguntou ao líder do Ra'am, Mansour Abbas, se considera o Hamas uma organização terrorista. Abbas respondeu: "Vocês não podem nos submeter constantemente a esse teste". Ele já condenou os ataques de 7 de outubro, segundo a mesma mídia.

Para Yassin, ela já sentiu e viu esses testes de lealdade acontecerem antes em Israel. "Mesmo que os dois milhões de árabes que vivem aqui digam que condenam o Hamas, no dia seguinte teremos outro teste", disse. Ela afirma que um governo formado só por judeus significaria "descer alguns degraus" na democracia israelense.

Em Ajami, bairro de Jaffa, Omar Siksik lembra que a própria cidade foi palco de expulsões. Antes de 1948, havia cerca de 100 mil palestinos em Jaffa; depois da Nakba, a catástrofe que marcou a criação de Israel, restaram menos de 4 mil, confinados em Ajami sob regime militar. Siksik, nascido ali em 1957, disse que a eleição é "a única coisa em que somos iguais aos judeus. A única coisa". Quando os árabes expressam insatisfação com o governo, afirmou, "o voto árabe vira um perigo para o Estado".

A reportagem também registra a desconfiança de moradores. Nadia, comerciante de roupas no bairro, disse não ser otimista: "Se levantamos a voz nas ruas, somos presos. Se levantamos a voz nas urnas, somos descartados". Ela afirmou que votaria de novo para impedir a entrada de Ben-Gvir e Smotrich no governo.

Yassin contou que, num café de Tel Aviv, ouviu uma conversa de mesa vizinha sobre Gaza e sobre como "mataram as crianças", aparentemente em reação ao que ela vinha dizendo. Agora, observa até israelenses considerados liberais e se pergunta se apoiariam a participação de árabes numa coalizão. "Se eles não querem meus representantes, também significa que não me querem", resumiu.

Fontes: Al Jazeera — “play”.