Flávio Bolsonaro não é considerado foragido pela Justiça, mas PF avalia pedido de prisão preventiva
Senador descumpriu ordem judicial de entrega de passaportes e deixou o país. Especialistas explicam por que ele não se enquadra na condição de foragido.
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O senador Flávio Bolsonaro deixou o Brasil e desembarcou nos Estados Unidos, mesmo após uma determinação judicial que proibia sua saída do país. Apesar da viagem, o parlamentar não é considerado foragido pela Justiça brasileira. A Polícia Federal (PF) confirmou que o senador descumpriu a ordem de entregar seus passaportes em até 24 horas, mas a ausência de um decreto de prisão preventiva impede a classificação técnica de foragido.
A investigação apura suspeitas de lavagem de dinheiro e evasão de divisas envolvendo o senador e o advogado Willer Tomaz. No último domingo (25), o Supremo Tribunal Federal (STF) atendeu a um pedido da PF e impôs medidas cautelares, que são restrições impostas pelo juiz para garantir o andamento do processo sem que o réu seja preso. Entre as medidas, estavam a apreensão de documentos de viagem e a proibição de contato com outros investigados.
O limite da lei e a interpretação jurídica
Especialistas em direito penal esclarecem que o descumprimento de uma medida cautelar, como a entrega de passaporte, não gera automaticamente o status de foragido. A advogada Marina Coelho Araújo, doutora em direito penal, afirma que o senador está inadimplente com a Justiça, mas não foragido. A condição de foragido exige a existência de um mandado de prisão preventiva expedido e não cumprido pelo acusado.
A professora da Fundação Getulio Vargas (FGV), Luisa Ferreira, reforça que o descumprimento pode levar a um novo pedido da PF. Segundo a especialista, o Código de Processo Penal prevê que o desrespeito às ordens judiciais é fundamento para que o magistrado decrete a prisão preventiva. Na prática, isso significa que a liberdade do senador agora depende da análise do STF sobre a gravidade do descumprimento da ordem anterior.
A estratégia de fuga e a reação política
A apuração indica que Flávio Bolsonaro utilizou um passaporte italiano para ingressar na Argentina e, posteriormente, usou seu passaporte diplomático para entrar em território americano. A Polícia Federal avalia que a saída do país adiciona um novo elemento ao inquérito. Investigadores consideram que estão presentes os requisitos do artigo 312 do Código de Processo Penal, que permite a prisão para garantir a instrução criminal ou a aplicação da lei penal.
A situação gerou repercussão internacional. Deputados democratas da Câmara dos Representantes dos Estados Unidos criticaram o governo Trump pela concessão de visto ao senador. O grupo traçou um paralelo entre o tratamento dado a Flávio e as restrições impostas a refugiados de conflitos armados no Sudão e no Haiti. O perfil oficial dos democratas questionou a postura do secretário de Estado, Marco Rubio, sobre o caso.
Quem paga a conta dessa instabilidade institucional é a própria credibilidade do sistema judiciário. Enquanto o senador utiliza múltiplas nacionalidades para evitar restrições, o debate sobre a eficácia das medidas cautelares ganha força. A PF mantém as investigações em curso, enquanto o STF avalia os próximos passos para assegurar que a lei seja aplicada, independentemente do cargo ocupado pelo investigado.
O inquérito contra Flávio Bolsonaro é um desdobramento de investigações sobre movimentações financeiras atípicas e o uso de sua influência política para favorecer aliados como Willer Tomaz. A tensão entre o Poder Judiciário e o parlamentar escalou após a descoberta de que o senador mantinha contatos proibidos por decisão judicial, o que levou a PF a endurecer as medidas de controle de fronteira.