Chuva inunda milhares de barracas em Gaza e deixa deslocados expostos ao frio

Defesa Civil local recebeu cerca de 1.500 pedidos de socorro em 10 horas; grupos humanitários atribuem a situação a restrições israelenses à entrada de abrigos.

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Membro da equipe da UNRWA conforta criança angustiada em um abrigo escolar no campo de Nuseirat, na Faixa de Gaza (imagem de arquivo).
Foto: Ashraf Amra / CC BY-SA 3.0 igo via Wikimedia Commons

A primeira tempestade de inverno da temporada atingiu a Faixa de Gaza no sábado e inundou milhares de barracas ocupadas por famílias palestinas deslocadas. Segundo a Defesa Civil local, as equipes receberam cerca de 1.500 pedidos de socorro em apenas 10 horas, desde o início da chuva. O nível da água subiu de 30 a 40 centímetros em vários abrigos.

"O que temíamos, de fato, aconteceu", disse o porta-voz da Defesa Civil, Mahmoud Basal, à Al Jazeera. "Alguns centros de abrigo foram totalmente inundados, e todos que estavam lá tiveram de sair para o desconhecido."

Basal afirmou que bebês prematuros, idosos e doentes são os mais expostos. "Quem vive em barracas corre risco de morte e de doença a qualquer momento", disse. A chuva e o vento também derrubaram prédios já danificados pela guerra israelense no território, iniciada em outubro de 2023.

Em Nuseirat, na região central, equipes retiraram moradores de um prédio que desabou parcialmente com o vento e a chuva. No norte, a parede de outro edifício caiu por causa da chuva forte e feriu duas pessoas, segundo a agência palestina Wafa.

Famílias expostas à água e ao frio

Imagens de acampamentos na Cidade de Gaza, em Khan Yunis e em Deir al-Balah mostram famílias caminhando em água até o tornozelo. Colchões e cobertores estão encharcados, e crianças descalças ficam em poças de lama e esgoto.

"Se as casas não aguentam essa chuva, como uma lona de plástico aguentaria?", questionou a repórter da Al Jazeera Nour Khaled, de um acampamento na Cidade de Gaza. Ela disse que mais de 28 mil viúvas estão entre as pessoas que enfrentam o inverno sozinhas com os filhos.

Em al-Mawasi, área costeira do sul onde mais de 900 mil deslocados se abrigam, a chuva caía desde as 22h de sexta-feira, segundo o repórter Rami Abu Taima, de Khan Yunis. "As pessoas acordaram e encontraram centenas, até milhares, de barracas inundadas em toda a Faixa de Gaza", disse. Ele afirmou que mais de 125 mil famílias que vivem na costa correm risco de ter as barracas levadas pelo mar.

O comitê de emergência de Gaza afirmou que mais de 1 milhão de deslocados enfrentam os perigos do inverno. O território precisa com urgência de cerca de 200 mil barracas, além de equipamentos para aquecimento.

O diretor da Defesa Civil na governadoria de Gaza, Raed al-Dahshan, disse à Al Jazeera que as equipes pouco podem fazer quando chegam às famílias inundadas. "A Defesa Civil não tem sequer uma lona ou uma barraca", afirmou. "Nós só salvamos vidas, e isso não é suficiente."

Grupos de ajuda atribuem a situação às restrições israelenses à entrada de materiais de abrigo. Mohammed Salha, diretor da Rede de ONGs Palestinas, disse à Al Jazeera que entram em Gaza apenas 180 a 200 caminhões por dia. O protocolo humanitário previsto no "cessar-fogo" fala em 600, e apenas cerca de 40 desses caminhões levam ajuda humanitária, segundo ele.

"Não queremos responder depois que as barracas alagarem", disse Salha. Ele afirmou que 50 mil barracas aguardam do lado egípcio da fronteira e classificou a pressão internacional sobre Israel para liberar mais suprimentos como "tímida". "Temos de responder antes que o desastre aconteça."

O caso mostra como o controle das passagens de fronteira pode decidir a sobrevivência de uma população inteira no inverno.

Fontes: Al Jazeera — “play”.